Johannesburgo - Com a autoridade que lhes concede o fato de serem os primeiros habitantes do continente latino-americano, os povos indígenas de Equador, Bolívia, Peru e Brasil vieram à cúpula de Johannesburgo para pedir aos governantes que lhes deixem cuidar da terra de seus ancestrais e contribuir para o desenvolvimento sustentável da região.
Expulsos de suas terras seculares, afastados de suas plantas e árvores pela mão das multinacionais, contagiados com doenças de que nunca ouviram falar e afetados, como todos os seres humanos, pela mudança climática, os índios latino-americanos compartilharam suas dificuldades com outros 300 irmãos de povos do mundo inteiro.
''Meu povo é decidido e forte mas não é livre. Não queremos ser independentes, e sim autônomos, para pôr em prática nossa visão de mundo. Ninguém tem uma relação tão especial com este planeta como nós'', declarou Sebastião Haji Manchinari, do povo Yine, do Acre.
Os povos indígenas do mundo, que representam 5 mil comunidades e 350 milhões de pessoas, reuniram-se na semana passada em Kimberley (centro da África do Sul) e apresentaram ontem em Johannesburgo sua declaração para esta cúpula de desenvolvimento sustentável da ONU.
Os povos indígenas já chamam este evento de ''A cúpula da avidez sustentável''. Eles assinaram uma declaração de reivindicações, batizada Kari-Oka (Casa do branco, na língua tupi) durante a reunião do Rio de Janeiro em 1992. Desde então, sua situação vem piorando notavelmente.
Nesta ocasião, os índios esperam que o plano de ação de Johannesburgo contenha uma frase que ''reafirme o papel vital dos povos indígenas no desenvolvimento sustentável''.
''O atual conceito de desenvolvimento sustentável é uma forma de disfarçar a destruição do meio ambiente. Nós temos algo a oferecer ao mundo'', explicou Sebastião Manchinari.
Pouco têm a ver as plumas coloridas deste índio brasileiro com as longas tranças e o rosto impenetrável de Tom Goldtooth, da América do Norte, ou as misteriosas e enegrecidas tatuagens faciais de Pauline Tangiora, procedente de um povo da Nova Zelândia. Mas seus problemas são os mesmos.
''A terra, o controle dos recursos, o desflorestamento, a educação e a saúde. Essas são nossas urgências. Não pode haver desenvolvimento sustentável sem que se reconheçam os direitos dos povos indígenas sobre suas terras ou o controle de seus recursos'' garantem.
Para Jacinto Rodríguez, de Potosí (Bolívia), que está preparando um documentário durante o evento para o Plano Nacional indígena de comunicação audiovisual, com o fim de apresentar o trabalho a diversas comunidades da América Latina, a conferência da ONU é ''um circo que não terá nenhuma eficácia''.
''Não temos acesso às reuniões oficiais, todas as negociações são realizadas a portas fechadas, com rígidos controles de segurança. Não somos ouvidos'', lamentou Mirian Masaquiza, da Confederação Nacional de Organizações camponesas, indígenas e negras do Equador.

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