Povo europeu incomodado com ataques contra Iugoslávia Do correspondente GILLES LAPOUGE
Paris, 25 (AE) - Todos os governos da OTAN com exceção da Grécia que defende como sempre a Sérvia aprovaram, sem maiores escrúpulos, os bombardeios contra a Iugoslávia. Essa unanimidade contrasta fortemente com as opiniões dissonantes manifestadas antigamente por ocasião dos ataques dos americanos ao Iraque de Saddam Hussein.
Mas, não devemos nos ater a essas constatações pois, debaixo dos poderes estão os povos. E os povos da Europa não estão necessariamente encantados com as bombas lançadas pela OTAN sobre um país situado no coração da Europa.
Esse mal-estar é observado nas ruas. Esta manhã, ouvimos diversas pessoas se escandalizarem diante do fato de a "Superpotência", sustentada pelos países mais fortes do mundo (Alemanha, Inglaterra, França), esmagar friamente um pequenino país europeu.
Muitos experimentaram uma sensação de horror como se, de repente, dez leões unissem suas garras para dilacerar um coelho ou um camundongo (É verdade que o "coelho Milosevic" é um coelho cruel e mórbido, mas mesmo assim um coelho!). Outro mal-estar: pela primeira vez, comentavam algumas pessoas nos terraços dos bistrôs, bebericando café com creme, a Otan intervém não para separar dois povos inimigos, mas para atuar dentro de um país em favor de uma província desse país (Kosovo) contra seu governo legal (Belgrado).
Isso constitui um precedente terrível!. Não seria abrir uma "caixa de Pandora"? A OTAN teria ousado intervir na Argélia no tempo da guerra desse "departamento francês" contra sua Metrópole, a França? E amanhã, seria plausível que a OTAN enviasse bombas, ou mesmo tropas, para socorrer 15 milhões de curdos turcos que reivindicam sua independência de Ancara? Não terminaríamos de enumerar as calamidades que o novo princípio aplicado pela OTAN pode provocar!
Outras pessoas vão ainda mais longe: mesmo no Iraque, dizem, os americanos só agiram depois de ter solicitado o acordo da ONU. Hoje, pela primeira vez, é a OTAN, e portanto a máquina americana, que ataca.
É verdade que todos os países europeus apoiavam a ação de Clinton, mas isso não é justificativa! A ONU não foi consultada, a fim de evitar um veto esperado por parte da Rússia e da China. Em outras palavras, foi a própria estrutura do direito internacional que foi cinicamente conspurcada desta vez!
Essas foram algumas das conversações surpreendidas em Paris. Não havia raiva. O que predominava era um sentimento de tristeza, de cansaço a sensação de que tudo se passa longe, acima da cabeça dos cidadãos, e mesmo acima da cabeça dos governos europeus.
"Antigamente, pelo menos," ouvi dizer," as capitais européias protestavam, pouco, é verdade, mas enfim era melhor do que nada contra o atrevimento de Washington. Hoje, o que existe é um silêncio absoluto. A ordem mundial, hoje, é ditada por Washington".
No próprio desenrolar das operações, prevalece o mesmo sentimento de que os povos - e talvez até os governos são mantidos totalmente à margem. Sabemos que existem ataques, mas quais são os alvos? E quais os centros atingidos? E o que vai acontecer depois? Os povos avançam cegos, conduzidos pela mão, como crianças, pelo grande Americano de Washington.
Por ora, esses descontentamentos são discretos. Todos se limitam a desejar que essa operação penosa termine o mais depressa possível. Mas, se Milosevic, consciente desse trunfo que faz com que uma parte da opinião pública lhe seja favorável, recusar-se a obedecer às ordens da OTAN, então os ataques se tornarão cada vez mais duros e mais sangrentos. E nesse caso, como reagirão os povos? Imaginemos que fotos de feridos e de mortos, de pilhas de cadáveres, de hospitais cheguem em abundância aos países europeus (e mesmo nos Estados Unidos), então, o que aconteceria?





