Brasília, 05 (AE) - As contas de caderneta de poupança fecharam o ano passado com um ganho líquido de recursos da ordem de R$ 2,7 bilhões. O resultado foi obtido levando em conta o dinheiro depositado nestas contas a título de remuneração das aplicações dos poupadores. Considerando apenas os depósitos e saques ocorridos ao longo do ano passado, o resultado passa a ser uma perda líquida de recursos de R$ 8,3 bilhões. O conceito que leva em consideração os rendimentos creditados, de acordo com uma fonte do Banco Central (BC), é usado no acompanhamento das captações em Certificados de Depósitos Bancários (CDBs). "No caso do CDB, nós contamos como captação nova o rendimento creditado na aplicação que é renovada no vencimento do título e este modelo foi aplicado também para a poupança", disse esta mesma fonte.
Pelos dados do BC, o desempenho da poupança, sem levar em conta os rendimentos creditados, foi o mais fraco desde 1995. "Provavelmente foi o pior desde o real. Mas não podemos afirmar isto porque em 1994 nós tivemos duas moedas diferentes e é difícil fazer a conversão", disse uma fonte do BC. O pior resultado verificado no período até 1995 havia sido o de 1998, quando as contas de poupança tiveram uma perda líquida de recursos de R$ 2,649 bilhões. A piora ocorrida no ano passado, pela avaliação de especialistas do BC, foi provocada, em sua maior parte, pela desvalorização do real em janeiro de 1999 e a mudança na regra dos fundos de investimentos em geral.
A desvalorização, de acordo com uma fonte do BC, deu um novo fôlego aos fundos cambiais que, até então, estavam "mortos". "Ninguém aplicava nos fundos cambiais na época em que tínhamos um regime de câmbio praticamente administrado. Com a flutuação cambial, houve uma corrida de investidores para estes fundos", disse esta fonte. A liberalização das regras de funcionamento dos fundos de investimentos implementada em agosto tornou estes ativos financeiros mais atrativos que as cadernetas de poupança. "Ficou muito melhor aplicar nos fundos de investimento do que na poupança", afirmou esta fonte.
A baixa remuneração da poupança foi, na visão desta fonte, outro fator que contribuiu para o desempenho ruim deste ativo financeiro em 1999. "A poupança perdeu de todas as outras modalidades de investimento. Teve uma rentabilidade muito baixa", disse uma fonte do BC. Este é um problema, no entanto, que os investidores em caderneta de poupança deverão continuar enfrentando neste ano. "Não há interesse em se mexer nisso", comentou esta fonte. O problema, neste caso, é o fato de que o desempenho da poupança está atrelado à variação da Taxa Referencial (TR). "Não se pode aumentar a TR sem afetar a dívida dos mutuários do Sistema Financeiro da Habitação (SFH)", disse esta fonte ao lembra os saldos devedores dos empréstimos habitacionais é corrigido pela TR.
A TR também é usada como indexador de 3% da dívida mobiliária federal. "Qualquer alteração, neste caso, afeta as contas públicas", comentou esta fonte. O governo, além disso, está certo que, mesmo na pior das hipóteses, o saldo das aplicações em caderneta de poupança ficará em um patamar igual ou um pouco acima dos R$ 100 bilhões. "Não se pense que este saldo caia a um nível inferior a R$ 100 bilhões", comentou esta fonte. Com este patamar, o BC sabe que não haverá nenhuma dificuldade do sistema financeiro cumprir as exigibilidades de aplicação dos recursos de poupança em habitação. Atualmente, os bancos são obrigados a aplicar 60% dos recursos depositados em contas de poupança no financiamento imobiliário.
A expectativa, segundo esta fonte, é que o desempenho da poupança em 2000 seja muito parecido com o verificado no ano passado. "Não há grande expectativa de mudanças no panorama do ano passado", afirmou uma fonte do BC. Apesar disso, esta fonte chamou a atenção para o desempenho da poupança no último mês do ano passado. Em dezembro, a poupança teve um ganho líquido de recursos de R$ 1,064 bilhão no conceito que leva em conta os rendimentos creditados e de aproximadamente R$ 309 milhões quando não se ignora o efeito do rendimento dos investimentos em poupança. O saldo da poupança, com este resultado, fechou o ano passado em R$ 111,146 bilhões.