Poucos norte-americanos prestam atenção em corrida rumo à Casa Branca Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 31 (AE) - Apenas 26% dos norte-americanos dizem estar prestando atenção na corrida à presidência dos Estados Unidos. Meros 6% afirmam estar realmente interessados e companhando a disputa de perto. Dois terços ainda não têm candidato e uma maioria de 55% acha que, até agora, a campanha foi uma grande chatice.
Os dados, compilados pela Escola Kennedy de Governo da Universidade de Harvard, para um estudo sobre a tendência de redução da participação dos eleitores na vida política dos Estados Unidos, não indicam necessariamente que os norte-americanos sejam maus cidadãos, desengajados das decisões sobre seu futuro.
Para começar, as eleições só ocorrerão dentro de mais de nove meses, no dia 7 de novembro. Além disso, 73% dos norte-americanos estão satisfeitos, dizem estar vivendo melhor hoje do que há oito anos. E 81% não querem que a próxima administração se lance na execução de planos ousados, preferindo a continuação do progresso que hoje desfrutam.
É possível que a campanha se torne um pouco mais interessante depois que os eleitores de New Hampshire votarem amanhã, na eleição primária que tradicionalmente marca o início oficial do ritual de escolha do presidente americano. Mas não é provável.
Uma razão é que nenhum dos contendores que estão desafiando os candidatos presuntivos dos partidos Democrata e Republicano parecem estar em posição para obter a vitória decisiva de que necessitam para criar uma vantagem psicológica e convencer seus correligionários e os eleitores em geral de que são mais do que meros desafiantes.
Em lugar disso, o senador John McCain, de Arizona, que disputa a candidatura republicana com o governador do Texas, George W. Bush, e o ex-senador Bill Bradley, de Nova Jersey, que está empenhado em concorrer pelos democratas no lugar do vice-presidente Albert Gore, estão engalfinhados numa disputa entre si pelos votos dos eleitores independentes, que constituem o maior bloco eleitoral (37%) de New Hampshire.
As informações disponíveis indicam que a maioria dos independentes que ainda não tinham decidido no domingo estavam pendendo para McCain.
Numa das muitas peculiaridades do processo de pré-seleção dos postulantes à Casa Branca, que começa em estados pequenos e pouco representativos, em New Hampshire os eleitores registrados como independentes podem votar nas primárias de um dos dois grandes partidos.
A norma é uma tentativa dos líderes locais de cultivar a imagem de independência política de New Hampshire para valorizar os 15 minutos de fama que o estado desfruta na cena nacional a cada quatro anos. Mas essa imagem não passa de mito e os esforços para perpetuá-la deixam em dúvida o próprio significado das primárias de New Hamsphire, pois levam a situações estranhas como a que vivem no momento o conservador McCain e liberal Bradley.
Politicamente situados em pólos, eles aparentemente dependerão hoje de eleitores independentes e supostamente mais centristas para manter suas campanhas nos trilhos.
De acordo com as últimas pesquisas, a vantagem confortável que McCain já teve sobre Bush diminuiu bastante nos últimos dias e a diferença entre eles é menor do que os três ou quatro pontos percentuais de margem de erro da maioria das sondagens.
Entre os democratas, as pesquisas são contraditórias e estimam a vantagem de Gore entre 12% e aumentando (Reuters) e 1% e diminuindo (CNN).
Um segundo lugar para Bush, apenas alguns pontos atrás de McCain, não alterará a previsão da maioria dos analistas sobre a inevitabilidade da candidatura do governador do Texas.
Já uma vitória de Gore sobre Bradley, ainda que por margem apertada, será um duro golpe para os planos do ex-senador de New Jersey, que vem de uma humilhante derrota nas prévias da semana passada em Iowa, depois de ter estado durante meses à frente de Gore nas pesquisas.
Mas mesmo que as sondagens estejam equivocadas e os eleitores de New Hampshire supreendam os analistas dandos vitórias decisivas a McCain e Bradley, é improvável que os norte-americanos se entusiasmarão pela campanha presidencial nos próximos meses. O motivo é que eles provavelmente reconhecem que os quatro principais contendores à Casa Branca são políticos cautelosos. Eles provavelmente já concluíram, também, que são pequenas e não ideológicas as diferenças que separam Gore, Bush, Bradley e McCain nas questões que mais lhes interessam, como educação, os seguros federais de saúde e a seguridade social.
Com isso em mente, o colunista Frank Rich, do New York Times, publicou um artigo sobre a campanha presidencial no sábado passado com o título "Acordem-me quando estiver quase acabando".)
Nada disso diminuirá a disposição das redes de televisão americanas e de milhares de jornalistas dos EUA e do resto do mundo de cobrir cada detalhe da disputa, num processo no qual, segundo o veterano comentarista Jack Germond, do jornal The Baltimore Sun, a imprensa acaba gerando, com sua presença, o evento que cobre. Pelo contrário, a ausência de propostas de governo dramaticamente diferentes deixa o caminho aberto para que a campanha se transforme num confronto entre personalidades e num vale tudo de ataques pessoais, que Gore e Bradley já começaram a ensair em sua briga pela candidatura democrata.





