O prédio onde a Escola do Movimento está instalada diz muito sobre o seu timoneiro, o coreógrafo e terapeuta corporal Ivaldo Bertazzo, de 57 anos. De concreto e vidro, tem iluminação farta, belos quadros com motivos orientais, instrumentos indianos, amplas salas, pufes coloridos e objetos inusitados. Alguns dos acessórios são usados nas aulas, destinadas a pessoas de todas as idades, que queiram harmonizar o corpo, pelo método criado por Bertazzo.
Ele também dirige a Cia. de Dança Ivaldo Bertazzo, composta por bailarinos de 15 a 22 anos, do projeto social que ele realizou em parceria com o Sesc em diversos bairros periféricos da capital paulista. Bertazzo, que se dedicou ao estudo da anatomia e fisioterapia, antes da dança, lembra que antes do espetáculo vem o trabalho de conscientização do corpo, essencial para que o resto dê certo.
Crítico dos cursos que enfatizam o relaxamento, ele conta que, na sua escola, tudo começa a partir da postura ereta, nada de se deitar no chão e se soltar. ''A força contínua em você é seu potencial energético, você perde isso se mandam relaxar'', comenta. Para os cidadãos urbanos, ele recomenda que estejam em atividade física, seja em natação, arte marcial ou dança.
Como a maioria está no piloto automático, é preciso modificar o comportamento do corpo. Para isso, antes de entrar na atividade física em si, ele recomenda a fricção e estimulação da pele, para ativar a circulação. Para as mãos, indica a manipulação de pequenos objetos, passando-os sobretudo pelas regiões que tendem a criar fibrosidade, o que acarreta na tenebrosa lesão por esforço repetitivo (LER).
A atividade das mãos ocupa um grande espaço do cérebro. Segundo Bertazzo, elas foram feitas, sim, para esforços específicos, como a digitação contínua. ''As mãos são o que nós temos de melhor, o homem foi feito para manipular coisas. O problema é que as pessoas não descascam batatas o suficiente'', fala, com seriedade. ''Para criar mobilidade entre os espaços dos tendões e ossos, as pessoas deveriam chegar em casa e fazer todo o serviço de debulhar feijão e milho. Isso preveniria a tendinite, que é resultado de um músculo solista, trabalhando muito e sozinho.''
Outro trabalho importante é o de alongar a região entre o crânio e o quadril, pois a tendência natural depois dos 40 anos de vida é que esse espaço fique menor. ''Esse alongamento deve ser constante, pois o encurtamento pode ocasionar problemas no nervo ciático e radicular, além de resultar numa respiração errada.''
Os pés são fundamentais. O ideal é que sejam bons amortecedores, prendendo-se como ventosas ao chão. ''O peso deve estar bem distribuído entre os dois pés. Caso contrário, o joelho vai receber peso, e ele não foi feito para isso'', fala Bertazzo. O bumbum não deve estar arrebitado, nem retraído: deve-se encontrar o equilíbrio da bacia. Com o peito ocorre o mesmo: nem posição de soldado, nem voltado para dentro. Mas o olhar é o mais importante de tudo. ''Ele deve se organizar para frente, senão estraga toda a postura.''
O coreógrafo diz que o corpo humano não foi feito para passar tanto tempo sentado. ''Deveria ser uma precaução médica levantar-se a cada uma hora e meia, e caminhar 10 minutos em torno do escritório.'' Observa ainda que as pessoas nunca deveriam se sentar em cadeiras com encostos que ''jogam para trás'': a coluna deve estar alinhada. O melhor é que a cadeira não tenha braços, pois a pessoa tende a privilegiar um dos lados. E, na posição sentada, deve-se sentir os pés empurrando o chão.




MÉTODO IVALDO BERTAZZO

Os exercícios que promovem o alongamento entre o crânio e o quadril, ativam a circulação e flexibilizam as articulações podem ser feitos em casa. A professora Mônica Monteiro, que dá aulas há 22 anos na Escola do Movimento, descreve-os:

- Exercício 1: fricção com escova de cerdas de fibras vegetais (vendida em casas de produtos naturais)

Com movimentos circulares, escove a pele do braço, pulso, pés, nuca, ombros e todas as partes que estiverem tensas. Faça isso até a área ficar avermelhada, pois isso significa que a circulação foi estimulada. Insista nas partes que demoraram a ficar vermelhas, ou onde a pele está enrugada ou opaca. Faça essa escovação com a pele seca. No rosto, pode ser usada uma escovinha menor. Não é preciso usar a força, mas sim repetir o gesto. Ativa a circulação.



- Exercício 2: vibração com bastão - pode ser improvisado, cortando-se um cabo de vassoura ao meio

Vá pisando no bastão com todas as partes dos pés. As partes que doem precisam ser mais trabalhadas. E é a partir do pé que o corpo muda de estado. Depois, esfregue o bastão nos músculos do braço, articulações e na mão. Isso faz os músculos vibrarem e as articulações ficarem mais flexíveis, prevenindo a tendinite. Não estique os cotovelos. Vá enrolando o bastão, como um rolo de macarrão, alargando a palma das mãos. Isso alonga os músculos da região, aquece as extremidades e também previne a LER.



- Exercício 3: alongamento entre crânio e quadril

Com as pernas dobradas, sente-se sobre um lado do quadril. Coloque uma mão na costela e a outra na cabeça. Estique os músculos da cintura e puxe uma mão para baixo e a outra para cima. Isso cria força na região que liga a parte de baixo e de cima do corpo, e previne a compressão dos discos da coluna, que resulta em diversos problemas. Repita do outro lado.



- Exercício 4: com banquinho.

Como se fosse uma escada, suba e desça no banquinho. Quando pisar, empurre seu peso para baixo. Acelere o ritmo e faça isso até o coração bater mais forte. No final, coloque apenas a ponta dos pés no banquinho e jogue o seu peso para frente, sem mexer o calcanhar. É bom para conquistar equilíbrio, despertar os músculos e tirar o corpo do piloto automático. É também um exercício aeróbico, que estimula a circulação.

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