O Ministério da Saúde vai começar a distribuir gratuitamente seringas e camisinhas nos postos de saúde de várias cidades brasileiras. O objetivo é tentar barrar a epidemia de Aids e a disseminação de outras doenças entre usuários de drogas injetáveis.

A descentralização do ''Programa de Redução de Danos'', como é chamado, deverá ser implantado no Sul ainda este ano. O aumento da epidemia nos três Estados é o que mais preocupa o ministério. O último boletim mostrou que a região registrou o maior crescimento da doença (51%), com tendência a continuar subindo. E o grupo mais afetado é o de drogados.

Desde que surgiram, na metade da década de 90, os projetos de redução de danos já provaram que funcionam no combate à transmissão de doenças.

No Rio, a taxa de infecção por HIV dos usuários de drogas caiu de 35% para 8% nos últimos cinco anos. E a contaminação com hepatite C, outra doença que pode ser transmitida quando se compartilha seringa, passou de 70% para apenas 13%.

Mas esses programas poderiam ser ainda mais eficientes. Na maioria das capitais, eles funcionam em sede única e são acompanhados por organizações não-governamentais (ONGs). A consequência disso é a criação, mesmo não intencional, de guetos de drogados. Descentralizando os programas, o ministério acredita que conseguirá atingir mais usuários e, com isso, reduzir comportamentos de risco.

''Queremos transformar o dependente em um doente comum. Ele, como qualquer outro, poderá ir a um posto e receber tratamento'', afirma Domiciano Siqueira, presidente da Associação Brasileira de Redutores de Dano, uma ONG de Ribeirão Preto (SP) que presta consultoria ao ministério sobre o assunto.

Além da distribuir seringas e camisinhas, os programas também oferecem tratamento médico e psicológico. Por causa da grande especialização do serviço, a implantação nos postos de saúde não é tão simples. Antes de tudo, é preciso formar profissionais de saúde, que têm que aprender a lidar com os usuários e como não assustá-los.

''Muitos têm medo de ir a um posto de saúde e falar de seu problema porque acham que serão denunciados à polícia'', afirma Christiane Sampaio, uma das coordenadoras do programa no Rio.

Essas dificuldades fizeram os coordenadores dos primeiros programas de redução a contratar, como agentes de saúde, os próprios usuários. O resultado foi tão animador que hoje existem cerca de 350 redutores de danos no País, e a maioria deles é ou foi dependente de drogas.

São pessoas que conseguem mais êxito no trabalho porque os usuários tendem a se identificar com eles. É o que explica Marco Manso, usuário de drogas que trabalha como redutor de danos na Bahia. ''O trabalho me ajudou muito e tem ajudado outras pessoas.'' Salvador é a cidade que começou a implantar o projeto no país.

Atualmente, segundo Manso, existem cerca de 15 postos com equipe preparada para atender usuários. ''O resultado é imediato. A gente vê que as pessoas estão mudando seus hábitos e deixando de colocar a vida deles e a de outras pessoas em risco'', diz Manso.

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