Washington, 10 (AE) - Duas semanas atrás, o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Michel Camdessus, chegou muito perto de chamar o vice-presidente senior e economista-chefe do Banco Mundial, Joseph Stiglitz, de irresponsável. "Há um ditado no meu país que diz não atire na ambulância", disse Camdessus, durante uma entrevista coletiva, referindo-se à dura crítica que Stiglitz fizera dias antes à política de privatização acelerada que o FMI e o departamento do Tesouro promoveram na Rússia, antes de o país ter as instituições reguladoras necessárias para coibir a roubalheira desenfreada em que se converteu a experiência capitalismo instantâneo tentada em Moscou.
"Vejo que meu amigo Stiglitz está tendo problemas com seu chefe e não quero acrescentar a esses problemas", alfinetou Camdessus. Dois dias antes, o presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, censurara publicamente seu economista-chefe por sua atitude "um pouco generosa consigo mesmo" de dizer, depois do fato, "que tudo teria sido diferente se tivessem seguido o meu conselho".
As críticas de Camdessus e de Wolfensohn a Stiglitz ajudaram a elevar ainda mais o perfil de iconoclasta do economista, que antes já havia atacado publicamente a receita do Fundo e do Tesouro em plena crise financeira asiática e afirmado, em julho último, numa visita a Pequim, que uma desvalorização controlada da moeda poderia ajudar a China a lidar com o problema da deflação. Esta semana, elas podem se transformar num pesadelo de relações públicas para o FMI, o Banco Mundial e o Tesouro, se a Academia Real de Ciências da Suécia der a Stiglitz o Prêmio Nobel de Economia deste ano. O ganhador já está escolhido, de acordo com um processo ultra-secreto, baseado na nomeação de candidatos pelos ex-laureados. Atribuído pela primeira vez em 1969, o Nobel de Economia foi criado para comemorar o terceiro centenário do Sveriges Riksbank, o banco central da Suécia, e é conferido em seu nome. O anúncio será feito nesta quarta-feira.
A julgar pela opinião dos economistas, as maiores chances este ano parecem ser do professor Robert Mundell, da Universidade de Columbia, um economista clássico que ajudou a desenvolver a teoria sobre as relações entre as políticas fiscal e monetária e já trabalhou como consultor do FMI. Mundell lidera uma pesquisa informal conduzida, via internet, por John S. Irons
um professor do Amherst College, em Massachusetts. Mas Stiglitz vem logo abaixo de Mundell. Co-autor da teoria econômica sobre informação e mercados imperfeitos, o economista-chefe do Banco Mundial é tido há já alguns anos por seus colegas de profissão como um nome certo para receber o Nobel. No ano passado, ele também ficou em segundo lugar na sondagem de Irons, que previu corretamente a escolha do indiano Amartya Sen, um teórico do desenvolvimento econômico que deu atenção especial aos mais pobres, em seus estudos.
"A sabedoria convencional é que os suecos ficarão com um economista mais tradicional este ano, depois de terem homenageado Sen no ano passado", disse um economista que trabalha com Stiglitz. "A expectativa não é que Joe ganhe, mas ele é conhecido na Suécia e a Academia pode querer usar o prêmio este ano para fazer uma declaração política sobre a condução das crises financeiras da globalização a partir da crise do México, que continua a ser questionada", acrescentou o economista.
Talvez essa hipótese tenha animado um porta-voz do Banco Mundial a ensaiar uma operação de controle de danos na semana passada. Ele garantiu que "Stiglitz fala em público o que Wolfensohn gostaria mas não pode dizer, por causa de sua posição de presidente do Banco, mas os dois estão em perfeita sintonia e as rugas públicas entre eles não representam nenhum diferença substantiva". Com ou sem o Nobel, o contrato de Stiglitz com o Banco Mundial termina em janeiro. Segundo fontes do banco, ele deve permanecer no posto até junho, mas já indicou sua inençao de reassumir, em setembro, sua cátedra na universidade de Stanford, da qual se licenciou em 1993 para trabalhar no Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca.

mockup