São Paulo, 2 (AE) - Pela primeira vez em cinco meses, o Comitê de Política Monetária (Copom) manteve inalterado o juro básico da economia brasileira, representado pela taxa Over/Selic. De março até 28 de julho, o Banco Centraç - através do Copom ou da utilização do "viés de baixa" - cortou o juro de 45% ao ano para 19,5%. Ontem (1), após reunião que durou cinco horas, a autoridade monetária decidiu manter inalterados o juro em 19,5% e o "viés neutro".
O diretor de Política Monetária, Luiz Fernando Figueiredo, acredita que o mercado reagirá positivamente à decisão, que vem acompanhada da queda do recolhimento compulsório sobre depósitos a prazo de 20% para 10%. Apesar da expectativa do BC, não é certo que o mercado será complacente com o governo que tem insistido, há semanas, na necessidade de acelerar a redução dos juros para alavancar a economia, sem falar do poderoso efeito que despesas fina nceiras menores provocam no resultado nominal das contas públicas.
Ontem à noite, profissionais consultados pela AE revelavam surpresa com o resultado da reunião do Copom, destacando uma dúbia interpretação: ao manter o juro estável, o Banco Central estaria reafirmando uma postura conservadora, mas, ao mesmo tempo, sinalizando que o cenário econômico não apresenta tanta melhora quanto está alardeando o governo.
Inquietante, porém, é a expectativa que o próprio Banco Central está criando em torno da reunião do Copom marcada para o dia 22, quando será divulgado o segundo Relatório de Inflação.
O jornalista Gustavo Freire, da AE, acompanhou a reunião do Copom em Brasília e relata que durante a entrevista realizada ontem à noite, o diretor de Política Monetária ressaltou várias vezes que haverá nova reunião no dia 22 e outra no dia 6 de outubro, acrescentando que em 20 dias o colegiado formado por chefes de departamento e diretores do BC poderá tomar uma nova decisão sobre o juro básico praticado no País.
Contradições - Não passaram despercebidas duas contradições na entrevista do diretor de Política Monetária: 1) justificar a estabilidade do juro frente à trajetória declinante da inflação em setembro - esperada pelo BC; 2) tentar compensar a estabilidade do juro com o corte do compulsório sobre depósitos a prazo.
Operadores não descartam a possibilidade de o mercado reagir negativamente à constatação de que a inflação vai para um lado e o juro não sai do lugar pela primeira vez em tantos meses e, a despeito do discurso otimista da equipe econômica, exatamente porque foi o persistente discurso do governo que induziu o mercado a refazer suas estimativas sobre o comportamento do juro.
A estabilidade, projetada inicialmente, deu lugar à expectativa de que alguma redução seria promovida ontem, quando um corte de 0,50 ponto era considerado praticamente certo. O risco de o BC descasar a trajetória dos juros da trajetória da inflação - que ele mesmo tratou de vincular sistematicamente - é fomentar discussões sobre a orientação da política monetária que é pautada pela política de metas de inflação, ainda mal consolidada no Brasil.
O grau de risco fica claro na comparação feita por um experiente profissional à editora Marisa Castellani, "a política de metas de inflação e câmbio flutuante está para Fraga assim como a política de câmbio fixo estava para Franco". Em outras palavras, comentou o executivo, se em alguma hora os juros subissem, significaria que tudo estaria indo por água abaixo, inclusive a atual direção do BC - como aconteceu com o ex-presidente Gustavo Franco.
Compulsório - Além da inquietação provocada pela interrupção da queda do juro primário num contexto de inflação em queda, o mercado não acredita que a redução do compulsório diminuirá o "spread" bancário facilitando o crédito aos tomadores finais.
Ontem à noite, profissionais ainda chamavam atenção para a possibilidade de o BC promover o ajuste do compulsório devolvendo títulos públicos às instituições que, para obter recursos, deverão encontrar compradores finais para os papéis - o que não parece fácil no momento considerando a ativa atuação do próprio BC e do Tesouro Nacional no mercado aberto.
Na prática, aumenta a percepção de que o BC talvez não consiga apresentar rapidamente ao Presidente da República um conjunto de medidas efetivas que possam reduzir o custo do crédito.
Técnicos do BC vêm analisando detalhadamente diversas modalidades de operações bancárias, procurando detectar o que de fato corresponde a custo de captação, "spread" e cunha fiscal. Grandes bancos não hesitam em afirmar, porém, que o grau de inadimplência continua orientando as áreas de crédito, ditando o nível do prêmio de risco que o cenário econômico vem justificando.
Parece óbvio, mas é fato: os bancos estão abertos a qualquer negócio, desde que não percam dinheiro. Eles tampouco desprezam a constatação de que o próprio governo vem garantindo remuneração para os seus títulos - a princípio sem risco - bem acima do juro primário.

mockup