Lisboa, 06 (AE) - Ao contrário do silêncio que normalmente acompanha os cortejos fúnebres, o percurso realizado pelo carro que levava o caixão da cantora portuguesa Amália Rodrigues de sua casa até a Igreja onde ocorre o velório foi acompanhado de palmas.
Cerca de 300 pessoas subiram hoje (06) à tarde os quase 2 quilômetros da ladeira que levava da Rua de São Bento à Basílica da Estrela atendendo a um pedido da maior fadista portuguesa, que dizia que precisava de aplausos como de pão.
"É o dia mais triste da minha vida. Para mim, a maneira como ela cantava e a emoção que ela tinha é a exceção que confirma a regra de que não há pessoas insubstituíveis", afirmava na basílica o fadista João Braga, que procurava organizar as quase 2.000 pessoas que estavam na igreja.
Sérgio Ferreira Borges, primo do marido da cantora, lembrou uma história da generosidade de Amália: "Uma vez, o poeta José Carlos Ari dos Santos pediu dinheiro a Amália para as famílias dos presos políticos. Ela disse que não tinha dinheiro ali, naquele momento, mas tirou os brincos, os anéis, as pulseiras e as jóias e entregou para serem vendidos".
O velório reuniu pessoas de todas as idades. O pintor de automóveis Carlos Teixeira, de 78 anos, lembrava o primeiro concerto que viu de Amália, no Cassino da Figueira da Foz, em 1952. "Foi uma grande perda para todos os portugueses", conta, recordando o título e a ordem de cada uma das músicas que ouviu há 47 anos.
Entre as recordações do fotógrafo aposentado Fernando Magalhães, de 71 anos, vizinho da fadista, estão as músicas que ouvia da casa de Amália, nas noites em que ela reunia amigos para tocarem e cantar.
"Ela morava perto do parlamento e quando havia manifestações ela aparecia na janela para ver e era sempre aplaudida".
Levando o filho de seis anos pelo braço, a balconista Lucília Borges, de 25 anos, tinha os olhos cheios de lágrimas. "Era uma grande fadista e esta é a última oportunidade de me despedir dela".

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