Lisboa, 28 (AE) - A mudança de posição indonésia a respeito do Timor Leste foi recebida com cautela e incredulidade pelas autoridades portuguesas. As declaraçäes do ministro da Informação indonésio, Yunus Yosfiah, e do chanceler Ali Alatas, de que o país poderia se retirar do território caso a população rejeite a autonomia proposta pelo governo de Jacarta, não foram consideradas como propostas oficiais.
"A posição do presidente português é que a proposta deveria passar pelas discussäes no quadro da Organização das Naçäes Unidas", afirmou Elizabeth Caramelo, assessora de Jorge Sampaio. Hoje, estava prevista mais uma rodada de negociaçäes entre Portugal e Indonésia na sede das Naçäes Unidas em Nova York. A reunião termina amanhã (29) e os portugueses esperam que os indonésios oficializem a mudança de posição.
As declaraçäes indonésias provocaram uma reunião especial do primeiro-ministro Antônio Guterres e do chanceler Jaime Gama com o presidente para analisar seu significado. "O ministro das Relaçäes Exteriores está disposto a sentar à mesa com o secretário-geral da ONU, Koffi Anan, e com o chanceler indonésio, Ali Alatas, para discutir essa proposta", afirmou Guterres à saída.
Até agora, as negociaçäes entre Portugal e Indonésia estavam num ritmo lento. No quadro das propostas de Koffi Anan para o Timor, este mês será colocada uma diplomata portuguesa em Jacarta, na embaixada da Holanda.
A diplomata teria a possibilidade de se deslocar quando quisesse a Timor. Dentro dos próximos meses a Indonésia vai abrir uma seção de interesses em Lisboa, na embaixada da Tailândia.
Enquanto as autoridades portuguesas tomavam uma posição de expectativa, os partidos políticos portugueses comemoravam, numa rara unanimidade. O ex-chanceler José Manuel Durão Barroso - atual deputado pelo Partido Social-Democrata, da oposição - afirmou que "não está longe a possibilidade do Timor Leste ser um país independente". Eduardo Pereira, do Partido Socialista, festejou a possibilidade de haver mais um país de língua portuguesa.
A resistência timorense tem reagido com cautela. João Carrascalão, da União Democrática Timorense, disse que o Timor Leste não está neste momento em condiçäes de ser independente.
Segundo a resistência, a proposta indonésia aparece em meio a várias contradiçäes. Líderes da oposição no território acusam as autoridades indonésias de entregarem armas a civis favoráveis à integração, para provocarem uma guerra civil e serem chamadas de novo para intervir. Ao mesmo tempo, os militares indonésios teriam realizado vários massacres na região ocidental do país.
Segundo Zacarias da Costa, do Conselho Nacional da Resistência Timorense, "é preciso notar que é apenas um anúncio. Para que essa medida se efetive, será preciso que a Assembléia Consultiva do Povo tome a decisão de não aceitar a autonomia e as eleiçäes para a assembléia só vão ocorrer em 7 de junho".
Zacarias avalia que a proposta indonésia é resultado das pressäes internacionais: "A União Europeia clarificou sua posição contra a Indonésia, a Austrália mudou de lado e os Estados Unidos há alguns meses modificaram sua postura frente ao problema do Timor Leste.
"Estamos no ponto mais baixo da crise indonésia e o governo de Jacarta corre o risco de ficar isolado internacionalmente". No entanto, ele não confia na mudança de posição. "Não é a primeira vez que a Indonésia faz promessas e não cumpre".

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