Portugal abre Leituras da Carta de Pero Vaz Caminha De JAIR RATTNER, Especial para a AGÊNCIA ESTADO
Lisboa, 17 (AE) - Os portugueses já podem ver um dos principais módulos da exposição que vai comemorar o Descobrimento do Brasil. Desde quarta-feira, está aberta ao público no Palácio de Belém - o local de trabalho do presidente português - a mostra Leituras da Carta de Pero Vaz de Caminha.
A mostra tem 11 quadros realizados por alguns dos mais importantes pintores portugueses atuais, apresentando a visão de cada um sobre a carta que comunica ao rei português a descoberta do Brasil. A mostra será exposta em São Paulo, com o original da carta de Caminha, na grande exposição Brasil 500 Anos de Artes Visuais, que será aberta em 22 de abril na Bienal, seguindo depois para o Rio, Salvador e Brasília.
"A escolha dos pintores foi feita pela seção portuguesa da Associação Internacional de Críticos de Arte", conta José Augusto França, organizador da mostra. Os quadros foram encomendados pela Comissão dos Descobrimentos Portugueses. "A comissão deu o número de 11 pintores, mas podíamos ter escolhido 22 ou até mais e teríamos pintores de qualidade", afirma França.
Na avaliação de França, a mostra virou um importante panorama da pintura portuguesa atual: "Temos artistas de várias gerações, o mais velho é o Júlio Resende, de 83 anos, e a mais nova é a Ana Vidigal, com 39 anos."
No mais abstrato dos quadros da mostra, Ana Vidigal procurou expressar a palavra achamento. "Eu já tinha lido a carta de Caminha na escola, mas, quando reli agora, tive um amor à primeira vista com a palavra achamento, que explica aquilo que deslumbrou aquela gente: as cores e os cheiros da terra."
Para Noronha da Costa, que criou a imagem desfocada de uma mulher da época sentada, tendo ao fundo uma caravela, aceitar a encomenda de pintar a carta de Caminha não foi uma mudança de rumo em sua carreira. "O desafio foi prosseguir na pintura que costumo fazer, em que a saudade se traduz em viagens, e fazer alusão a duas paisagens, duas terras", explica. "Sinto que há uma força de unidade que a história vem conferir entre nós e o Brasil, mas esses elementos já estavam na minha pintura."
Vários dos quadros parecem não ter nenhuma relação com a carta de Pero Vaz de Caminha. "A pintura mais próxima é a de Costa Pinheiro, em que aparecem frases na tela, bem ao estilo dele", explica França.
Um dos quadros que parece ter maior distância em relação ao Descobrimento é O Minotauro no Brasil, de Nikias Slapinakis, um pintor português cujos pais eram gregos. "Sou de ascendência grega e o minotauro faz parte da tradição familiar", diz. "Pintei o minotauro vendo as praias e os montes brasileiros para retribuir à visita que Monteiro Lobato fez à Grécia Antiga." Nikias, de 68 anos, conta que, com os livros de Monteiro Lobato, reencontrou os mitos gregos que ouvia nas histórias de seu pai, quando tinha 10 anos.
Uma das características da mostra é que todos os quadros têm grandes dimensões. "Tínhamos medo de que fizessem quadros pequenos, mas os pintores optaram por marcar uma posição", afirma França. O maior quadro é de Ana Vidigal, com 1,90 por 3,40 metros.
A proposta de levar os quadros para o Brasil, com a carta, surgiu em maio de 1998. "Pretendíamos mostrar um pouco do Portugal atual e foram escolhidos pintores seguros, que valem a pena ser vistos", afirma o presidente da Comissão para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses, Joaquim Romero de Magalhães.
Segundo Magalhães, depois das quatro exposições no Brasil, que vão até setembro, os quadros não vão voltar para Portugal. "Vários museus se interessaram por eles, mas vão ser doados para fazer parte do futuro Museu Nacional de Brasília."
A mostra em Lisboa, que fica aberta até o dia 9, faz parte da exposição de Natal que todos os anos é realizada no palácio presidencial em Lisboa. Com a mostra, encontram-se várias peças sagradas - custódias e relicários - feitas no século 18 com ouro e pedras preciosas que vieram do Brasil.Como a exposição está montada na antecâmara da sala de trabalho do presidente Jorge Sampaio, ele costuma parar e conversar com os visitantes.





