Brasília, 02 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso justificou hoje, por intermédio de seu porta-voz, Sergio Amaral, a substituição de Francisco Lopes por Armínio Fraga Neto como uma adequação do Banco Central a um perfil mais operacional. "A evolução e a experiência, neste fase de transição, mostraram que o Banco Central ganharia com um diretor operacional", disse Amaral. "Diante dos novos fatos, o governo tem obrigação de reagir e não pode abrir mão de intervir quando achar necessário." Irônico, o porta-voz reagiu às críticas de que o governo teria escolhido "uma raposa para cuidar do galinheiro"
em razão de Armínio Fraga Neto ter trabalhado até agora como assessor do megainvestidor Georges Soros. "Acho que é difícil nos irmos buscar um diretor do BC em um consultório clínico ou em um escritório de advocacia", ponderou.
"Felizmente as pessoas mais competentes para desempenhar funções na área financeira são as que trabalham no mercado financeiro."Amaral comentou ainda que existe uma "preocupação legítima" da sociedade e do Congresso em estabelecer uma quarentena para altos funcionários, portadores de informações privilegiadas, que deixam o governo. "Mas nunca se falou em quarentena para entrar (no governo)", criticou. O porta-voz afirmou ainda que Fraga Neto é "um profissional competente, deixou no Banco Central a imagem de um homem público idôneo" e "certamente saberá avaliar, nas suas novas funções, a melhor política para o Brasil".
Perfil - De acordo com Amaral, num primeiro momento o governo mudou um dos aspectos da política econômica, com a nova política cambial. "Num segundo momento o governo mudou pessoas", disse, argumentando que a saída de Lopes está relacionada ao novo perfil do BC, que "exige pessoas mais familiarizadas com as operações de mercado". O porta-voz acrescentou ainda que quando o governo indicou o nome de Chico Lopes para o Senado a intenção era mantê-lo em definitivo no cargo.
"Se a idéia fosse tê-lo interino ou transitório, ele não teria sido indicado ao Senado", ponderou Amaral. "Acontece que naquele momento se acreditava que seria a forma mais adequada e só mais recentemente se percebeu que era preciso alterar o perfil do BC." Amaral informou ainda que coube ao ministro Malan a missão de ligar para o presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) e o relator do processo de Chico Lopes
José Fogaça (PMDB-RS) para avisar da mudança. "O ministro contou com o apoio e a compreensão deles."
Segundo o porta-voz, a mudança na presidência do BC não foram feitas em razão de "incompetência ou erro" de Chico Lopes na direção do BC. "Ao longo dos primeiros quatro anos de mandato, a mesa do BC não precisou ser operada porque a taxa de câmbio era previsível", argumentou. "Não quero personalizar ninguém, mas as realidades mudam", acrescentou após fazer transmitir vários elogios de Fernando Henrique à atuação de Chico Lopes.
Calma - "Durante todo o tempo que esteve no Banco Central, como diretor ou como presidente, teve um comportamento profissional e exemplar e deu uma contribuição valiosa para a mudança da política para o câmbio flutuante." Amaral afirmou ainda que na semana passada, quando manteve encontro com Fraga Neto no Alvorada, Fernando Henrique não suscitava sua ida para o governo. "Nesta fase inicial de transição, há incertezas e também dificuldades que o governo nunca escondeu, e diante dos fatos o governo tem de tomar decisões." O porta-voz acrescentou ainda que nesta transição, é preciso ter claro que o câmbio ainda não está estabilizado e que o preço do dólar frente ao real poderá subir ou descer. "Não podemos nos deixar impressionar por essa oscilações que ocorrem", afirmou. "Quem entende e tem dito que a tendência será de declínio porque, apesar da queda, o câmbio ainda está num patamar exageradamente alto." Amaral disse ainda que Fernando Henrique está "atento" às evoluções da nova política cambial e que está "consciente" de estar fazendo o bem para o País.
Vamos ter, durante algum tempo, um período de incertezas porque vivemos uma situação nova, mas o rumo está dado e as conquistas do real serão preservadas", disse Fernando Henrique, segundo Amaral.

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