Por Tatiana Bautzer, enviada especial
Santiago, 12 (AE) - A possível volta do general Augusto Pinochet ao Chile colocou de vez a ditadura militar em pauta na reta final para as eleições presidenciais. O presidente do Chile
Eduardo Frei, atacou a oposição num discurso hoje (12) à tarde no qual comentou o assunto. Logo ao saber da decisão, na terça à noite, Frei convocou uma reunião ministerial no Palácio La Moneda e um de seus ministros divulgou um comunicado neutro, elogiando a decisão do ministro Jack Straw e lembrando os esforços do governo chileno para trazer de volta o general.
Hoje, Frei fez um discurso mais contundente comemorando a decisão. Afirmou que o governo sempre agiu com tranquilidade na tentativa de trazer de volta o general Pinochet ao Chile, para que os tribunais de Justiça do país se pronunciem contra as acusações feitas a ele. Numa crítica à oposição, e ao candidato da direita, Joaquin Lavín, Frei afirmou que a atitude que o governo chileno teve ao longo da prisão do general na Inglaterra "contrasta fortemente com a dos que há poucos meses exigiam o rompimento de relações com a Grã Bretanha e que hoje mudaram e ocultam sua adesão a Pinochet, guardando absoluto silêncio".
Ocandidato Joaquin Lavín, da oposição, apoiou o regime militar
mas procurou evitar o assunto durante a campanha eleitoral, afirmando que o país já superou a época de grandes divisões políticas. Ao longo da campanha, a prisão do general teve menos influência sobre os eleitores do que outras questões mais práticas, como a alta do desemprego devida à recessão no país.
Inicialmente, os dois candidatos presidenciais, que terminaram o primeiro turno praticamente empatados (a diferença de votos foi de apenas 0,44% do eleitorado), reagiram cautelosamente à notícia da possível liberação de Pinochet, o que poderia acontecer até o fim do mês, segundo analistas chilenos.
O ministro britânico deu prazo de uma semana para que as partes envolvidas se manifestem sobre sua decisão. Tanto o candidato do governo, Ricardo Lagos, quanto Lavín, disseram que a volta de Pinochet não terá influência nas eleições.
Lavín afirmou que não interromperá suas viagens pelo país, "seguindo com a campanha como sempre", e que não tem a intenção de falar com o general. Declarou que o assunto não afeta a votação deste domingo. "Essa será uma decisão diferente, que tem a ver com qual dos dois candidatos resolve melhor os problemas dos chilenos". Lavín afirmou que Pinochet deve enfrentar processos pendentes na Justiça do Chile "como qualquer chileno".
Ricardo Lagos considerou "normal" o fato de o ministro britânico ter aceito o argumento humanitário para dispensar Pinochet da extradição para a Espanha. Mas lembrou que a situação é diferente no Chile. Segundo ele, se Pinochet voltar, deve comparecer aos tribunais, onde há uma série de denúncias contra o general por violações aos direitos humanos cometidas pelo regime que comandou, entre 1973 e 1990. Mas Lagos também afirmou que não espera grandes mudanças nos votos dos chilenos nas eleições de Domingo por causa da decisão do governo britânico.
Processos - Se voltar ao Chile, o general Pinochet encontrará uma situação bem diferente da que deixou, há pouco mais de 15 meses. Hoje há 57 processos contra ele por participação em violações a direitos humanos cometidas pela ditadura militar. A maior parte dos processos, ligada a assassinatos ou desaparecimentos de opositores do regime, procura estabelecer a relação entre o general e a DINA, a temida polícia política do regime militar.
Apesar dos processos, familiares de desaparecidos não parecem convencidos de que o general possa voltar para ser julgado. Ao longo de todo o dia de ontem, a Agrupación de Familiares de Detenidos Desaparecidos (Associação de Familiares de Presos Desaparecidos) reuniu manifestantes em frente ao palácio La Moneda, no centro de Santiago, e líderes de associações de familiares consideraram a decisão um "retrocesso". A candidata do Partido Comunista, Gladys Marín, derrotada no primeiro turno das eleições, acusa o governo de fazer com que Pinochet "escape" da Justiça.
De uma forma geral, partidários de Pinochet, incluindo seu filho, Marco Antônio, reagiram com otimismo, mas cautelosos, à notícia, afirmando que é preciso esperar porque ainda há possibilidade de contestação da decisão de Straw.





