Por que os militares russos não conseguem capturar Grozny?
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sexta-feira, 28 de janeiro de 2000
Por Barry Renfrew 
Moscou, 28 (AE-AP) - Apesar de semanas de duros combates, os militares russos estão atolados nas ruínas de Grozny, incapazes de capturar a destroçada capital chechena ou de derrotar seus defensores, que dispõem de menos armamentos.
Por que um dos maiores exércitos do mundo vem lutando por meses para tomar uma única cidade? Por que um exército de 1,7 milhão de soldados não consegue derrotar alguns poucos milhares de guerrilheiros que não dispõem de tanques, aviões nem artilharia pesada?
Depois de anos de decadência política e econômica na Rússia, o exército parece mais com um bando armado do que com um exército moderno. A maioria das unidades de combate é composta de adolescentes recrutas destreinados que mal sabem usar uma arma. Muitos oficiais são maltreinados e estão desmoralizados como seus homens.
Uma infantaria bem treinada é a espinha dorsal de qualquer exército. O treinamento de combate nas forças armadas ocidentais dura até um ano, com um tempo ainda maior para oficiais e suboficiais. Alguns dos soldados russos mortos na Chechênia estavam no exército havia apenas seis semanas.
A maioria dos soldados, recrutados para dois anos de serviço, está desesperada para escapar das forças armadas. A vida nas fileiras é dura, com soldados algumas vezes passando fome e enfrentando brutal humilhação por parte dos mais antigos. A moral, a força psicológica que dá ao soldado vontade de lutar, desmoronou.
Todas essas fraquezas têm sido expostas na batalha por Grozny. Relutantes soldados russos estão sendo lançados contra experientes guerrilheiros lutando com determinação fanática por suas casas.
A guerrilha urbana está entre as mais difíceis e perigosas formas de combate. Os defensores de uma cidade têm milhares de lugares para se esconder e cada construção pode ser transformada numa fortaleza. Forças atacantes têm de limpar a cidade casa por casa, rua por rua. Os defensores podem escorregar em volta dos atacantes, fustigando-os pelos flancos ou pela retarguada a qualquer momento.
A destreinada e desmoralizada infantaria russa é totalmente despreparada para esse tipo de combate. Quando seus errantes ataques terrestres encontram resistência, os russos pedem por ataques aéreos ou de artilharia para limpar o terreno.
Mas ataques aéreos raramente causam baixas entre os combatentes chechenos, que conhecem as táticas russas e recuam antes dos bombardeios. As bombas demolem prédios vazios. Os destroços oferecem novos esconderijos para os chechenos e tornam-se obstáculos para as tropas russas.
À noite, os russos muitas vezes recuam para bases fortificadas
abrindo mão do território que havia acabado de conquistar. Os guerrilheiros reocupam o território e os russos têm de capturá-lo novamente, perdendo mais homens a cada dia.
Apesar das garantias dos russos, o cerco militar de Grozny não conseguiu isolar a cidade. Os rebeldes podem entrar e sair com suprimentos, especialmente à noite quando os russos retrocedem.
Grozny irá quase certamente cair, mas não porque a vontade militar russa superará a dos chechenos. Os chechenos decidiram lutar em Grozny porque isso dá a eles a melhor oportunidade de impor baixas nos russos, o que é o maior objetivo deles.
A guerrilha, que também tem sofrido perdas, irá recuar antes que suas próprias baixas cheguem a um ponto que ameace a capacidade deles de manter a guerra.
Os militares russos têm baseado a estratégia deles na conquista de Grozny, acreditando que a vitória terá uma repercussão suficiente para destruir a vontade de luta dos chechenos.
Mas os rebeldes provavelmente irão levar a luta para o interior da república e manter os combates como fizeram depois da perda de Grozny durante a guerra de 1994-96 - uma guerra que eles eventualmente venceram.


