População reage a pacote de Mahuad
Quito, 12 (AE-REUTERS) - O pacote econômico lançado ontem (11) à noite pelo presidente do Equador, Jamil Mahuad, foi duramente criticado hoje por lideranças empresariais, sindicais, indígenas e a população em geral. O pacote, que aumenta em 50% o Imposto de Valor Agregado (IVA), eleva os preços da gasolina em 165% e limita saques de contas acima de US$ 200, dentre outras medidas, foi divulgado num momento em que o país andino está mergulhado em uma onda de manifestações. O déficit fiscal, atualmente em 6% do PIB (US$ 1,2 bi), é fruto, segundo especialistas, da queda dos preços internacionais do petróleo, do fenômeno El Niño e da crise financeira internacional.
Nas ruas, os equatorianos estão confusos. Com todo o quadro atual, não estão convencidos de que o pacote minimizará seus problemas. Com os bancos fechados desde sexta-feira passada, se aglomeram diante dos caixas eletrônicos na tentativa de sacar alguns sucres. Em Portoviejo, na costa, os comerciantes fecharam hoje suas lojas com medo de saques.
Fausto Dután, da Frente Unitária de Trabalhadores (FUT) acha que o governo de Mahuad se tornou "impopular e ditatorial". Dután não descarta, sequer, pedir a renúncia do presidente. Dirigentes da Frente de Salvação Nacional (FSN), organismo que nucleia organizações sindicais e indígenas, pensam até no lançamento de uma campanha de desobediência civil. Para o dirigente da Frente Patriótica, Iván Narváez, as medidas "servirão para aumentar a inflação". Pesquisa feita pela consultoria Cedatos mostra que a popularidade de Jamil Mahuad, 50 anos, divorciado, e que assumiu a presidência em agosto, caiu de 26% em fevereiro para 16% neste mês.
O pacote de Mahuad também desagradou as lideranças empresariais. Para a presidente da Câmara da Pequena Indústria, Joyce Higgins, "o governo trocou um modelo em colapso por outro". Joaquín Zevallos, que dirige a Câmara de Comércio, foi mais duro: "o presidente gastou nosso tempo, nossa paciência, nosso dinheiro e nossa confiança".
Longe do pequeno país andino, em Wall Street, os especialistas em finanças receberam as medidas com cautela. Para o analista Rafael de la Fuente, do banco francês Paribas, "Wall Street recebeu bem o pacote, embora acredite que ele poderia ter sido ainda mais abrangente". De la Fuente acha que os investidores não vêem com bons olhos o fechamento dos bancos. "Congelar depósitos é uma medida muito grave", acrescentou. Como ele, a maioria dos analistas acredita que o governo precisa agora conseguir um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Os bancos no Equador abrem segunda-feira sob vigilância militar, graças a um decreto que mantêm o estado de emergência em todo o país. Após conhecer as medidas, o presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Enrique Iglesias, declarou em Paris que o Equador precisa de um grande acordo nacional para sair da crise econômica e social em que se encontra.
O pacote de Mahuad teve dois endereços. Primeiro, conseguir credibilidade internacional e tentar, junto a organismos financeiros multilaterais, um empréstimo de US$ 530 milhões. O segundo seria o de fechar, nas próximas semanas, um acordo com o FMI. Neste caso, o tiro pode ter saído pela culatra porque um porta- voz do organismo internacional disse, na quinta-feira, que o FMI está muito longe de um acordo com o Equador. Como parte das medidas ditadas dependem de apoio dentro do Congresso, o governo ainda tem que apostar que, na segunda-feira, receba apoio dos deputados.
Declarado pelo Congresso em 1997 "mentalmente incapacitado" para governar, o ex-presidente do Equador Abdalá Bucaram, que se autodenomina "El Loco", foi à desforra hoje ao chamar Mahuad de "inepto" e de "demonstrar um total estado de loucura" em suas intenções de arrumar a economia nacional.





