População negra protesta contra absolvição de policias
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domingo, 27 de fevereiro de 2000
Por Renan Antunes de Oliveira, especial para a AE (assinatura obrigatória) 
Nova York, 28 (AE) - A cidade de Nova York entrou hoje (28) no terceiro dia de protestos da população negra contra o veredito, anunciado sexta à noite, que inocentou quatro policiais brancos pela morte com 41 tiros do imigrante negro Amadou Diallo. O incidente ocorreu no ano passado e já tinha dado origem aos maiores protestos contra brutalidade policial na história da cidade.
Diallo, um camelô de 22 e ficha limpa, foi abordado na porta de casa perto da meia-noite por quatro agentes à paisana de uma unidade secreta, supostamente em busca de um bandido com aparência semelhante.
Teria feito movimentos bruscos e tentado fugir, quando foi baleado. Os policiais alegaram legítima defesa, afirmando terem confundido a carteira que ele tinha nas mãos com uma arma.
O julgamento foi televisionado. Analistas concluiram que o juiz Joseph Teresi favoreceu as teses da defesa, com papel decisivo ao instruir os jurados. Sete deles deram entrevista na TV, hoje, afirmando que receberam instruções para "olhar o caso sob o ponto de vista dos policiais".
No veredito, os jurados, de maioria branca, consideram a ação justificável - mesmo com 41 tiros, 19 acertando a vítima e uma das balas entrando na sola do pé, provando que ele foi atingido até depois de caído.
A absolvição era esperada desde que o julgamento fora transferido do bairro negro do Bronx, onde ocorreu o crime, para um distrito de imigrantes irlandeses, em Albany, a 300 quilômetros de Nova York - os policiais acusados também são de origem irlandesa.
No sábado pela manhã, o prefeito Rudolph Giuliani, defensor dos policiais desde a primeira hora, ainda tentou evitar as tensões raciais, elogiando a calma da população do Bronx depois do veredito - mas o discurso dele veio apenas horas antes que centenas de pessoas reagissem, iniciando os protestos.
Confrontado com a reação, Giuliani insistiu em que o incidente "foi uma tragédia, não um crime", tentando afastar a possibilidade de uma intervenção federal. No segundo ato, domingo, na praça da ONU, sob a liderança do ativista negro reverendo Al Sharpton, a multidão cresceu para pouco mais de mil pessoas.
A polícia já prendeu cerca de 100 manifestantes.
Nas calçadas, os ativistas gritam "assassinos" para os policiais nas barreiras. Carros circulam na frente das delegacias, com as pessoas exibindo cartazes criticando o veredito. Tropas de choque cercam a prefeitura e alguns pontos do Bronx - e devem continuar lá pelos próximos dias, enquanto o clima político segue esquentando.
Hoje, líderes negros anunciaram atos de desobediência civil e boicote às empresas que contribuem com a PBA (associação dos policiais). O lema deles é "sem justiça, não haverá paz".
O objetivo dos protestos é forçar uma intervenção federal para processar novamente os policiais, agora por violação dos direitos civis da vítima. Um precedente ocorreu no caso Rodney King, o motorista cujo espancamento pela polícia de Los Angeles foi causa de graves distúrbios raciais nos anos 90. Absolvidos da agressão pelo júri, eles acabaram condenados no segundo julgamento.
A morte de Diallo revelou ao grande público a existência do grupo policial Street Crime Unit (SCU, Unidade de Crimes de Rua)
cujo lema é "Donos da Noite". Formado por jovens brancos, altos e fortes, eles só prestavam contas a um comando independente, num quartel secreto.
Vestidos à paisana, em carros com placas frias, eles varejavam as ruas dos bairros de negros e latinos, detendo, revistando e com frequência espancado gente. Até o assassinato de Diallo, os protestos contra eles eram abafados pela prefeitura (no sistema americano, ela controla a polícia).
Durante o julgamento, os policiais tentaram passar a imagem de que trabalham de forma civilizada com o público.
Disseram que se aproximaram de Diallo com a frase "somos da polícia de Nova York, queremos conversar com o senhor", dita em tom de voz casual. Na verdade, a SCU é temida nas ruas porque seus homens sempre chegavam de armas nas mãos.
O incidente desmontou a SCU. E Nova York ganhou uma nova musa: Kadiatou Diallo. Ela é a mãe da morto, uma negra com visual charmoso, agenda política liberal, raciocínio rápido e língua afiada. Fala inglês perfeito. Exibe a dor pela morte do filho com grande dignidade. Ganhou respeito nacional instantâneo ao desembarcar da áfrica e rejeitar mordomias oferecidas pelo prefeito Giuliani, com uma frase: "Só vim buscar justiça para Amadou".


