Rio, 29 (AE) - A secretária nacional de Assistência Social, Wanda Engel, reconheceu hoje que existem mais recursos públicos para atender aos idosos do que às crianças - o que, segundo um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), criou uma distorção na distribuição de renda no País: há duas vezes mais crianças pobres do que velhos. "A ação social em relação à população até 6 anos é tímida e essa faixa etária é minha principal preocupação", afirmou Wanda.
Ela afirmou que os benefícios de prestação continuada - que garantem um salário mínimo a idosos que tenham até um quarto de salário mínimo de renda familiar per capita - consomem 72% do orçamento do Fundo Nacional de Assistência Social e são concedidos a mais de um milhão de pessoas. Em 1999, isso significou R$ 1,5 bilhão dos R$ 1,9 bilhão do orçamento da secretaria. As demais faixas de idade tiveram de dividir os restantes R$ 450 milhões.
"Acho que a faixa entre 7 e 14 anos está razoavelmente bem-protegida por programas como bolsa-escola, erradicação do trabalho infantil e de renda mínima", enumerou a secretária. "Mas há poucos projetos para os menorezinhos e é preciso que aconteça um mutirão em favor deles". Wanda lembrou que apenas 17% das crianças até 6 anos frequentam pré-escola - e que não é raro as empresas burlarem a legislação que prevê a existência de creches em locais de trabalho.
Investimento - O economista José Marcio Camargo, da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio, defende uma idéia mais radical: a de que os recursos da Previdência utilizados para garantir o piso de um salário mínimo a aposentados e pensionistas fossem alocados para programas de combate à pobreza infantil. "Alocar recursos para crianças é garantir que elas não vão ser pobres no futuro", afirmou. "Não faz sentido aumentar o salário mínimo dos aposentados e não investir na infância."
A proposta de investir nas crianças é bem-vista pela Associação dos Aposentados e Pensionistas da Previdência do Rio de Janeiro (Asaprev). O presidente da entidade, Roberto Pires, disse ser incontestável o dado de que há mais crianças pobres e, portanto, mais demanda de ações sociais para essa faixa etária. "Não concordo é com a idéia de que o governo investe no idoso"
ponderou. "Nossos recursos vêm do seguro social que pagamos numa vida inteira de trabalho."

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