Nos próximos 50 anos, as nações mais pobres do mundo terão sua população triplicada - enquanto a das mais ricas irá diminuir, prevê um novo estudo das Nações Unidas. A população atual do mundo de 6,1 bilhões de pessoas deverá alcançar 9,3 bilhões no ano 2050, estimou a Divisão de População da ONU, num relatório divulgado ontem. Nove de cada 10 pessoas estarão vivendo num país em desenvolvimento - um de cada seis na Índia.
Enquanto isso, a Europa e o Japão verão sua população encolher dramaticamente, forçando-os a repensar suas políticas de imigração e ajustes dos serviços sociais a fim de acomodar uma força de trabalho cada vez menor e uma população idosa cada vez maior, afirmou Joseph Chamie, diretor da Divisão de População da ONU.
‘‘Algumas pessoas pensam que o problema da população mundial está resolvido’’, disse ele. ‘‘Não está. Trata-se de um problema de longo prazo e estamos diante de uma sinfonia muito complexa - você tem alguns países com declínio populacional, outros crescendo rapidamente, e ainda alguns mantendo-se inalterados. Somando tudo isso, você tem um mundo muito complexo.’’
‘‘Virtualmente todo esse crescimento se dá nos países em desenvolvimento - e uma grande parte dele nas nações mais pobres’’, acrescentou. As projeções são uma pista do que virá a ser, para Chamie, uma ‘‘nova ordem’’ - um mundo que é mais populoso, mais velho e mais pobre, e um que dependerá fortemente da migração.
O crescimento populacional será fenomenal na África, grande parte da Ásia e da América Latina, projetou o estudo. Os Estados Unidos, com um novo influxo de 1 milhão de imigrantes por ano, irão crescer - dos atuais 283 milhões de habitantes para cerca de 400 milhões em meados deste século, segundo o estudo.
A Europa, em contraste, começará a enfrentar um declínio populacional já no ano 2003 caso não haja imigração. A população da Ucrânia está projetada para diminuir em quase 40% até 2005, e a da Rússia e da Itália em mais de 25%.
No ano passado, os 15 países da União Européia registraram um crescimento populacional natural - nascimentos menos mortes - de 343 mil. A Índia igualou esse crescimento a cada semana. Já pressionada por uma população de 1 bilhão, a Índia deverá ter mais 600 milhões de pessoas até 2050.
‘‘Desperdiçamos 50 anos’’, disse Ashish Bose, um demógrafo indiano e um crítico de longa data das políticas de controle da natalidade do governo. ‘‘Nosso planejamento falhou. O combate à pobreza, o combate à fertilidade e o combate ao analfabetismo deveriam ser simultâneos.’’
Cinquenta anos atrás, a Europa detinha 22% da população mundial. A África, apenas 8%. Hoje, os dois continentes estão empatados com 13%, e são superados pela Ásia, com 60%. Mas em 50 anos, a África terá três vezes mais habitantes do que a Europa, mesmo com as mortes relacionadas à Aids.
‘‘É como uma avalanche de mortalidade provocada pela epidemia da Aids’’, afirmou Chamie. ‘‘Apesar disso, você vê a África indo dos atuais 800 milhões para 2 bilhões’’ até 2050. Sem a Aids, esse número seria 300 milhões maior, projetou Chamie.
Enquanto isso, o mundo industrializado - Europa, América do Norte, Japão, Austrália e Nova Zelândia - verá sua população envelhecer. Vinte por cento dos europeus tinham 60 anos ou mais em 1998; até 2050, eles deverão ser mais de 33%, com as crianças representando apenas 14% da população, segundo o relatório.
As projeções da ONU levam em conta ganhos econômicos, assim como menores índices de mortalidade e fertilidade. Mas Ben Wattenberg, do conservador Instituto de Iniciativa Americano, advertiu que as estimativas podem ser ‘‘potencialmente enganosas’’.
A taxa de fertilidade - a média de filhos que uma mulher tem durante seus anos férteis - está declinando mais rápido e mais consistentemente no mundo todo do que sugere o relatório da ONU, sendo provável que a estimativa para 2050 esteja inflacionada, afirmou ele.
Se as previsões se confirmarem, um número menor de trabalhadores estará carregando o peso de suprir os idosos, um impacto econômico que pode se mostrar ‘‘catastrófico’’, segundo Paul Hewitt, do Centro para Estudos Internacionais e Estratégicos.
Os países têm de repensar seus sistemas de aposentadoria, comércio e imigração, afirmou ele. ‘‘Países com poucos trabalhadores terão de se integrar mais com países em desenvolvimento’’, disse Hewitt.

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