Brasília, 20 (AE) - Um estudo feito por 15 cientistas, realizado ao longo dos últimos quatro anos, revela que uma parcela da população do Amapá está contaminada com índices "preocupantes" por mercúrio, um metal que afeta o sistema nervoso central e que pode levar à morte. Os pesquisadores levantaram as condições de solo, atmosfera e das águas na Serra do Navio e na região de Tartarugalzinho, áreas que sofreram forte impacto dos garimpos nos últimos anos, constatando a gravidade da situação. Em alguns locais, os níveis de contaminação chegam a 22 partes por milhão (ppm), acima do índice considerado sceitável pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
O "Estudo do Ciclo do Mercúrio no Ecossistema da Floresta Amazônica - Avaliação do Impacto de Mineração de Ouro com a utilização do Mercúrio" é uma das mais profundas análises já realizadas sobre o assunto no País. Foram retiradas amostras de cabelos de pescadores e de suas famílias e também amostras de diferentes peixes. Os níveis mais alarmantes de contaminação por mercúrio foram detectados no Lago Duas Bocas, próximo a Tartarugalzinho, a leste do Estado, o primeiro de uma série de lagos que desembocam no norte do Amapá.
O nível de contaminação por mercúrio nos cabelos da população do Lago Duas Bocas, formada em sua maioria por famílias de pescadores, atingiu 22 partes por milhão (ppm), índice bem acima do que é admitido pela Organização Mundial de Saúde (OMS), para gestantes. Pelos critérios da OMS, o índice considerado limite de segurança é entre 10 e 20 ppm. "Em tais níveis de concentração", diz o estudo, "efeitos neurotóxicos já podem ser observados". O trabalho, no entanto, não dá o número de pessoas que poderiam estar contaminadas no Estado.
Segundo os pesquisadores, os níveis de contaminação por mercúrio no cabelo dos pescadores e seus familiares torna-se mais "preocupante" devido ao alto consumo de pescados na região. Os níveis de contaminação chegam a ser superiores ao que foi observado em outros estudos no País em regiões fortemente impactadas pelos garimpos, exemplo das bacias dos rios Madeira e Tapajós. Peixes - Na região de maior concentração de mercúrio nos peixes, diz o estudo, é necessário que as crianças e mulheres em idade reprodutiva consumam de preferência os peixes não carnívoros e de menor porte, que possuem menores níveis de contaminação por mercúrio. O mesmo trabalho mostra que algumas iniciativas contribuiram para reduzir o impacto dos garimpos no Lago Duas Bocas, exemplo de um dique para impedir a entrada de águas utilizadas em garimpos.
Os pesquisadores concluíram que a contaminação em peixes predadores exibe teores que "excedem os limites definidos pelo Ministério da Saúde" para consumo regular. Mesmo em lagos não impactados pelos garimpos, há peixes contaminados por mercúrio. Os pesquisadores não descartaram que haja uma "deposição de mercúrio transportado das regiões de garimpo por via atmosférica".
Para realizar o estudo, foram reunidos pesquisadores de órgãos públicos e de universidades. Entre os órgãos que participaram do projeto estavam os institutos Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), de Pesquisa Energéticas (Ipen), de Energia Nuclear da Agricultura (Cena), ligado à Universidade de São Paulo (USP), de Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Institut Français de Recherche en Coopération. Todo o trabalho foi coordenado pelo Núcleo de Pesquisa em Geoquímica e Geofísica da Litosfera (Nupegel), da USP.
Segundo o cientista Jean Remy Guimarães, geoquímico do Instituto de Biofísica da UFRJ, que ajudou a elaborar o estudo, o mercúrio pode provocar a perda da capacidade intelectual, da habilidade e do equilíbrio, além de problemas sensoriais. O cientista disse que além dos garimpos, "qualquer atividade que acelere a erosão do solo", como a construção de estradas e represas e desmatamento, pode provocar a contaminação por mercúrio, metal presente em solos de regiões tropicais.

mockup