PARIS (AE) - O dia 12 de outubro de 1999 não será absolutamente um dia comum. Nesse dia chegará à Terra o 6.000.000.000º ser humano.
Infelizmente, não se disse com exatidão em que segundo ocorrerá este prodígio. Entretanto, podemos profetizar que este bebê excepcional abrirá os olhos na Índia, na China, ou num país emergente e que será um bebê pobre, muito pobre.
Seis bilhões de seres humanos! Quatro vezes mais do que há um século. Duas vezes mais do que em 1960. Nos últimos dez anos, produzimos mais um bilhão de criaturas humanas.
E a coisa poderia ser ainda pior: Não nos esqueçamos que 200 milhões de cópulas são praticadas entre casais a cada dia no mundo. Em outras palavras, a cada dia, 200 trilhões de espermatozóides são liberados. Se cada um deles desse origem a um bebê, onde iríamos parar? Por sorte, é preciso contar com um imenso desperdício. Apenas alguns espermatozóides - os mais subtis, os mais encarniçados, os mais astuciosos - conseguem realizar sua tarefa. Os outros, seja por inépcia, seja por incompetência, seja por preguiça, seja por timidez, não atingem o objetivo. Obrigado, Senhor!
Seja como for, o número de seis bilhões é vertiginoso. E o quadro melhorou ainda um pouco de alguns anos para cá. Lembremos: os especialistas falavam a respeito de uma "bomba demográfica". Previam 9,4 bilhões de habitantes em 2050 (alguns falavam de 15 bilhões). Hoje, os números são revisados para menos: em 2050, haverá 8,9 bilhões de seres humanos. É um alívio.
Apesar disso, a situação é precária. Em primeiro lugar, nada é tão caprichoso quanto a atividade dos casais. Bastaria que cada casal gerasse um filho a mais do que o previsto para que a população mundial atingisse 27 bilhões em 2150.
Segundo pormenor: Se é verdade que a taxa de crescimento diminui (era de 2% ao ano em 1970; hoje não ultrapassa 1,33%), o número de seres humanos continua a aumentar: em 2050, haverá três bilhões de humanos a mais do que atualmente.
Finalmente, o crescimento da população é bastante desigual segundo os continentes. As zonas ricas são estáveis. Ao contrário, as regiões pobres, e muito pobres, fervilham de gente.
Iremos assistir a uma radical e trágica redistribuição das populações: em 2050, os países desenvolvidos não terão mais do que um bilhão dos 8.9 bilhões de seres humanos do Planeta. Com certeza, a América do Norte progredirá, mas a um ritmo mais lento. A América Latina também ( 167 milhões em 1950, 504 milhões em 1998, 809 milhões em 2050). Mas a ásia, a Oceania e a áfrica (sobretudo a sub- saariana, embora a aids tenha reduzido a expectativa de vida em sete anos), explodirão. Em 2050, a ásia contará 5 bilhões. A Índia terá ultrapassado a China (um bilhão e meio).Em contrapartida, a Europa deverá ver sua população encolher.
Perderá 101 milhões de habitantes daqui até 2050. Para garantir a substituição de uma população, a taxa de natalidade deve ser de 2,1 filhos por mulher. Hoje a Europa tem uma taxa de 1,44 filhos, enquanto a áfrica, apesar de uma desaceleração, tem sempre cerca de 6 filhos por mulher (mas um bebê entre cada dez crianças africanas não ultrapassa o primeiro ano de vida).
Quais as conclusões? A primeira é evidente: os países pobres vão ficar ainda mais pobres, enquanto os países ricos, cujas populações são estáveis, reforçarão sua insuportável hegemonia.
Contamos hoje com 900 milhões (inclusive 200 milhões de crianças de menos de 5 anos) de pessoas "subalimentadas", todas elas nas zonas prolíficas (sobretudo na áfrica).
Este é o drama de nosso tempo: a queda da natalidade aconteceu nos países ricos, isto é, nas únicas regiões onde esta queda não era nem necessária , nem desejável!
A forte natalidade dos países subdesenvolvidos é muito mais perniciosa porque transtorna a estrutura das classes de idade : nos países pobres, os jovens são evidentemente muito numerosos. Ora, os bebês nascendo neste momento na áfrica, que irão fazer no momento de entrar no mercado de trabalho? Imensas turbas de desempregados. Em dez anos, 700 milhões de adolescentes buscarão trabalho. Na maioria das vezes em vão.
Desta forma se apresentará a questão lancinante da emigração. Os jovens flagelados pela miséria tentarão entrar nos países ricos. E os ricos Estados Unidos e a rica Europa terão receio de se contaminar com a miséria de outros continentes. Podemos prever conflitos raciais, ondas violentas de xenofobia, um recurso ao terrorismo.
Felizmente, outro fator virá temperar estas perspectivas sinistras: a Europa produzirá apenas pouquíssimos filhos , será obrigada a recorrer à mão-de-obra dos países menos favorecidos para fazer funcionar suas fábricas..
A Europa e a América serão regiões de velhos - o que se chama a "floridização", em referência à Flórida, que conta com 19% de velhos. A Itália atingirá este patamar em 2003, o Japão em 2005, a Alemanha em 2006. Até a Revolução Industrial, os idosos constituiam 3% das populações européias. Hoje, constituem 14%. Em 2015, eles serão 25% e por vezes 30% do total.
Outro efeito devastador: a urbanização delirante. Em 2025, dois terços dos seres humanos viverão nas cidades. Mais grave ainda: Esta urbanização se concentrará no Terceiro Mundo. Em 1950, duas cidades tinham mais de 8 milhões de habitantes. Em 1995, havia 22 , inclusive 16 nos países "subdesenvolvidos". Em 2015, elas serão 33, inclusive 27 nas nações subdesenvolvidas (especialmente na ásia).
Essas megalópoles reproduzirão, a nível da cidade, o esquema mortífero que já prevalece a nível mundial . Haverá de um lado bairros muito ricos, muitos sofisticados e extremamente "superprotegidos", e de outro, bairros extremamente pobres e nauseabundos. E não é tudo: uma grande metrópole - Paris, Londres ou Roma - foi construída ao longo de 2000 anos, de forma que as infraestruturas, os monumentos se cristalizaram lentamente, quase naturalmente, em torno de alguns centros brilhantes, enquanto uma cidade-cogumelo do Terceiro Mundo é edificada de qualquer maneira - às pressas, ao acaso, no artifício do pânico - numa paisagem de extrema feiúra e privada de infraestrutgura. Calcutá, esse inferno, prefigura estas monstruosas cidades do futuro.
E como alimentar tantas bocas mais? A terra certamente é generosa. Mas será possível obrigá-la a aumentar indefinidamente suas proezas?
Os especialistas discutem o assunto. Alguns estão preocupados: Os solos se esgotam. Os peixes desaparecem dos oceanos. Os pastos não aguentam mais. A poluição arruina os solos. Os cereais estragam as terras. Os agricultores usaram tanto adubo que os campos morrem.
Ante estas visões sinistras, outros opõem um desmentido: a terra possui reservas de fertilidade e a ciência nos salvará. As biotecnologias (os OGM - organismos geneticamente modificados) afastarão a fome. Com a condição naturalmente, de que os OGM não tenham efeitos nocivos e de que os países pobres se beneficiem deles.
Com a condição também de que a água não venha a faltar. Ora, no que se refere à água, não existem divergências entre os especialistas.
Todos estão de acordo: aí está o maior perigo a ser enfrentado por uma Terra superpovoada.
Neste ano de 1999, 430 milhões de pessoas, ou seja 8% da população mundial, vivem em países onde a água é insuficiente. Em 2050, será uma pessoa em cada quatro (dois bilhões). A água já é um risco político explosivo. Todo o Oriente Médio está disputando a água para irrigação e para energia hidroelétrica (Egito, Síria, Turquia, Iraque, Israel, Palestina, Jordânia). Ora, estes países verão sua população aumentar 50% nos próximos 50 anos: não devemos descartar a possibilidade de guerras por causa da água. O mesmo quadro preocupante no Magreb (desde a Tunísia até Marrocos), no Quênia, na áfrica do Sul.
Portanto, se a "bomba democráfica", prevista para este milênio, foi desativada pela distração dos espermatozóides, o perigo da "superpopulação" humana ainda está iminente. A questão então é esta: quais os meios para reduzir a proliferação?
Foram feitas campanhas para desencorajar os nascimentos. Em alguns países, através da coerção (na China). Em outros, através da ciência, da propaganda, da medicina. Os meios contraceptivos são divulgados.
Certamente, o papa João Paulo II é decididamente contrário a todo controle da natalidade (causando indignação às igrejas européias, principalmente à alemã), mas suas exortações não têm mais efeito.
Seja como for, é essencial intensificar as campanhas de controle dos nascimentos nos países pobres. Mas os especialistas pensam hoje que a melhor arma é a cultura: a emancipação feminina , a escolarização das mulheres, a mudança nas relações entre homens e mulheres na família, a eliminação de algumas superstições ou tradições natalistas.
Um dos melhores especialistas, Jacques Dupâquier, explica: "Nas sociedades tradicionais, o interesse da família prevalecia sobre o do casal. E o do casal sobre o do indivíduo. A idéia que se fazia da felicidade, ao mesmo tempo que as considerações sociais favoreciam a familia numerosa. Ao contrário, no mundo mercantil, tendo em conta as normas da sociedade de consumo, o essencial é a satisfação das necessidades materiais e estas necessidades crescem mais depressa do que os meios para satisfazê-las, sob o aguilhão da publicidade. Nos países ricos, o apetite de consumo supera agora o das satisfações morais que uma familia numerosa poderia procurar. Desta forma, a taxa de fecundidade pôde cair recentemente na Espanha (1,44%), na Itália (1,22%) e na Bulgária (1,09%)".
E Dupâquier pergunta: "Será que o processo vai se estender progressivamente a todos os continentes e se verá, sob o efeito de mudanças culturais, reduzir a necessidade de filhos nos países subdesenvolvidos, como já se reduziu nos paises ricos?" A resposta será dada na metade do próximo século.

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