O Brasil cresceu 0,79% em população em relação ao ano passado. Agora são 210,1 milhões de brasileiros dividindo um território que tem cada vez menos capacidade de sustentar o consumo humano. A data que o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) usa como referência para os dados anuais de população, 1º de julho, é no mesmo mês em que o País atingiu o Dia da Sobrecarga da Terra, 31 de julho, apresentado pela organização internacional GFN (Global Footprint Network). Segundo especialistas, para além do aumento populacional, é preciso pensar em modelo de desenvolvimento sustentável e novos padrões de consumo.

Mobilizações contra o desmatamento da Amazônia mostram a consciência da população sobre o problema ambiental
Mobilizações contra o desmatamento da Amazônia mostram a consciência da população sobre o problema ambiental | Foto: Lula Sampaio/AFP

A taxa de crescimento é menor em relação ao ano passado (0,82%), o que mostra que o País cresce em ritmo mais lento e caminha para uma menor intensidade de volume populacional. No entanto, para se chegar ao equilíbrio, serão necessárias algumas décadas. “As mudanças de perfil da população e um regime de fecundidade já abaixo do nível de reposição mantidos a longo prazo tendem a gerar declínio da população. Daqui a 29 anos é esperado que comece a ter uma redução da população. As projeções atuais são de que aproximadamente em 2048 iniciaremos a diminuição, mas é provável que alguns Estados comecem um pouco antes”, explicou Márcio Minamiguchi, pesquisador do IBGE.

Tempo que o planeta não consegue esperar. Segundo Renata Camargo, especialista em conservação da organização não governamental WWF Brasil, as projeções moderadas das Nações Unidas para o aumento da população e do consumo indicam que o planeta não vai ter recursos para sustentar todos os habitantes do planeta. “Em 2030 precisaremos, se seguirmos nessa tendência, da capacidade de duas Terras para acompanhar o nosso nível de demanda por recursos naturais”, afirmou. No Brasil, o problema maior é a acentuada queda da biocapacidade - capacidade que a Terra tem de continuar produzindo recursos naturais que são consumidos e de absorver os resíduos gerados pela população.

Neste ano, os recursos naturais da Terra estimados para todo o ano chegaram ao fim em 29 de julho em todo o mundo, batendo o recorde de toda a média histórica. O Brasil esgotou seus recursos para o ano dois dias depois, em 31 de julho. Depois dessas datas, é como se o planeta estivesse no "cheque especial", utilizando suas reservas.

No entanto, apesar de contribuir para o consumo, o aumento da população não é o fator principal. De acordo com Efraim Rodrigues, professor do Departamento de Agronomia da UEL (Universidade Estadual de Londrina), a explosão demográfica tem a sua parcela de responsabilidade, mas o fator principal é o aumento do uso de recursos naturais. “Se a gente for ver o aumento populacional de 1945 para cá, do que se chamou de a grande virada do uso dos recursos naturais, depois da Segunda Guerra, o aumento populacional é grande, mas muito maior foi o uso de recursos naturais. Contam muito mais para a nossa situação atual a mudança no estilo de vida do que a taxa de natalidade”, afirmou. “Se tivéssemos que alimentar 400 milhões de pessoas que tivessem meio de transporte coletivo, alimentação vegetariana, estilo de vida mais frugal, talvez fosse mais fácil que os 210 milhões atuais”, acrescentou. Ele explicou que no meio acadêmico chegou-se à conclusão de que o aumento da população é ordem de grandeza menor, ainda que seja relevante.

Para José Marcelo Torezan, professor do Departamento de Biologia da UEL, apesar de não ser o fator principal para o esgotamento dos recursos, o aumento da população contribui para isso. “Só não vai acontecer se o consumo per capita cair, ou seja, se formos mais eficientes”, afirmou. Ele explicou que o cálculo do consumo de recursos, como água, solo agrícola, energia, é feito com base em um consumo médio, dividindo o que a sociedade nacional consome pelo número de habitantes, o que serve para um retrato da situação, mas não para entender a complexidade da situação. “Se usássemos a média de 1969 para prever a situação atual, erraríamos feio, porque hoje cada um de nós usa mais energia, tem acesso a mais água etc. Para o futuro, um cenário de estabilidade no consumo médio já seria ruim, pelo crescimento da população já haveria esgotamento.”

A queda populacional no País contribui para o menor uso dos ativos ecológicos, mas a questão é o padrão de consumo. “Precisamos fazer mais com menos. Produzir mais alimentos com menos terra, por exemplo, substituindo parte da área usada para produção de carne (pastagens) ou alimento de animais (soja) por agricultura voltada diretamente para alimentar pessoas”, defendeu.

Na questão da preservação dos recursos, Torezan é taxativo. “O desmatamento já poderia ser zero no Brasil há algum tempo. Há muita terra em que a vegetação nativa foi suprimida, mas a produção agrícola é baixa ou nula. Na Amazônia atualmente não se desmata para produzir, mas para ocupar a terra, é uma operação imobiliária, não agropecuária de fato.” As recentes mobilizações que levaram milhões às ruas em defesa da Amazônia, demonstram sensibilidade da população sobre o assunto.

Segundo a especialista da WWF, há medidas para todas as formas de engajamento com o meio ambiente, com ações que vão desde economizar água, utilizar transporte público e deixar o carro em casa. Camargo defendeu também a aliança de um crescimento econômico com olhos para a natureza. “É imperativo aliar desenvolvimento e sustentabilidade. Não temos mais escolha. Já temos estudos que mostram que é possível adotar medidas de redução de emissões de gases de efeito estufa e ainda ter ganhos econômicos. O que precisamos é de decisão política e ação”, afirmou.

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