População amarela cresce 176% em 10 anos
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sábado, 14 de julho de 2012
Fábio Galão <br>Reportagem Local 
Uma ''tendência'' oriental está varrendo as estatísticas demográficas brasileiras. De acordo com dados do Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na década passada o número de habitantes do País que se declaravam de raça amarela mais do que duplicou: passou de 761,6 mil para pouco mais de 2,1 milhões de pessoas. Esse aumento, de 176%, foi proporcionalmente quase 15 vezes superior ao crescimento geral da população brasileira entre 2000 e 2010, que foi de 12%.
Não existem explicações diretas para esse fenômeno. No Censo, o IBGE apresenta aos recenseados cinco opções de cores ou raças, para que se declarem como representantes de uma delas: branca, negra, amarela, parda ou indígena. As estatísticas não esmiuçam essas declarações - não são coletadas informações, por exemplo, sobre os países de origem dos antepassados do entrevistado.
Ainda assim, Alexandre Ratsuo Uehara, professor de Relações Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco, de São Paulo, aponta três explicações principais para o crescimento de 176% da população que se declara de raça amarela: uma identificação mais intensa com as etnias de origem, o retorno de dekasseguis que trabalhavam no Japão e o maior interesse no Brasil por parte de trabalhadores de países em que a raça amarela é predominante.
''É um crescimento que não pode ser explicado unicamente pelo crescimento vegetativo da população, já que a taxa de natalidade está diminuindo em todos os segmentos'', diz Uehara.
O professor cita que um levantamento feito na década de 1990 mostrou que o Brasil tinha uma população de origem japonesa (nascidos lá ou descendentes de imigrantes) de aproximadamente 1,5 milhão de pessoas. Entretanto, no Censo de 2000, a população total de raça amarela representou apenas metade disso. ''Em Censos anteriores, muitos não se identificavam como amarelos, e sim como brancos. Entendiam que o termo 'amarelo' não representava sua raça'', explica.
Dados do último Censo indicam que essa mentalidade estaria mudando, e não apenas entre a população de raça amarela: todas as cores ou raças tiveram aumento de população entre 2000 e 2010, exceto a branca, grupo em que foi verificada uma pequena redução. Ou seja, brasileiros negros, pardos, amarelos e indígenas, que antes se declaravam brancos, estão se identificando mais com suas origens raciais.
''Além disso, a crise de 2008 pode ter contribuído, com o retorno de dekasseguis do Japão. A vinda de trabalhadores de outros países asiáticos é outra explicação, principalmente de chineses. Muitas pessoas da China vêm trabalhar na área comercial, devido ao crescimento das exportações para o Brasil. A dúvida é saber quantos estão em situação ilegal'', descreve Uehara.
Entre 2009 e 2011, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) concedeu mais de 39 mil autorizações de trabalho para filipinos, chineses, japoneses, coreanos e indonésios. Nesse período, enquanto o número geral de autorizações para estrangeiros aumentou 64%, as permissões para trabalhadores desses cinco países cresceram 73%. Na conta, é claro, não entram dados de imigrantes ilegais.
Dekasseguis
A Associação Brasileira de Dekasseguis (ABD), entidade que presta apoio a trabalhadores que estão indo para o Japão ou voltando, estima que, nos anos seguintes à crise mundial de 2008, de 80 mil a 100 mil brasileiros tenham retornado do país asiático. ''Com a crise do terremoto e do tsunami (em 2011), um pouco mais voltou ao Brasil. Agora, com a recuperação econômica do Japão, muitas pessoas estão indo para lá novamente'', descreve Teichum Hiramatsu, presidente da ABD.
Hiramatsu acredita que, embora o retorno de dekasseguis tenha contribuído, não foi a razão principal para o aumento vertiginoso da população brasileira de raça amarela. Ele acredita que os números de 2000 estavam subdimensionados. ''O (dado) de 2010 está mais próximo da realidade'', aponta. O presidente da ABD, entretanto, não cogitou explicações para esse suposto subdimensionamento. ''Não acho que tenha havido alguma mudança cultural significativa para que mais pessoas se declarem (de raça amarela)'', diz Hiramatsu.


