Porto Alegre – Sentado na grama de um dos canteiros da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), onde acontece a maior parte dos eventos mais importantes do Fórum Social Mundial 2002, o filipino Dada Sovedanda parece longe do perfil de militante de esquerda ou de organização não-governamental que frequenta em massa o encontro.
Com roupas e turbante indianos na cor laranja, ao lado de amigos vestidos da mesma forma, ele masca com tranquilidade castanhas do Pará e explica a doutrina espiritual que segue, a Ananda Marga, originária da Índia e que prescreve ioga, meditação e alimentação vegetariana. Mas, mesmo atrás dela, há uma concepção política que, curiosamente, assim como as de representantes de entidades do FSM, rejeita o capitalismo e o comunismo.
‘‘A Ananda Marga acredita no aspecto espiritual, mas também nas mudanças sociais’’, diz ele. ‘‘Acreditamos que, após o capitalismo, haverá uma descentralização econômica.’’ O filipino explica que, para os seguidores dessa filosofia, a economia é centralizada, no regime capitalista, pelos empresários, e, no comunista, pelos burocratas.
Na capital nacional do churrasco, ele critica o consumo de carnes – nem mesmo peixe ou frango entram na sua dieta. ‘‘Se queremos proteger o meio ambiente, devemos começar a proteger nossos corpos’’, afirma. ‘‘Falam em humanismo, mas comem animais; animais também sofrem.’’ O filipino, que mora há dois anos no Rio de Janeiro, foi ao FSM pelo segundo ano, para acompanhar uma palestra de um dos líderes da Ananda Marga.
Mesmo com as roupas que chamam a atenção num país ocidental, Dada Sovedanda não parece causar surpresa na multidão que caminha o dia inteiro entre os prédios da PUC-RS, atrás dos eventos do FSM.
Atividades como a sisuda conferência sobre a paz feita pelo linguista Noam Chomsky, do Massachussets Institute of Technology, e até uma festiva batucada, animada pelo samba-enredo ‘‘Quizomba’’, com o qual a Unidos de Vila Isabel se sagrou campeã do carnaval carioca há anos.
Na tarde da sexta-feira, o refrão animava o Fórum Social Africano, dentro do FSM, também na PUC: ‘‘Ô-Ô, Ô-Ô, negra-mina, Anastácia não se deixou escravizar/Ô-Ô, Ô-Ô Clementina, o pagode é o partido popular.’’ Uma festa para os negros brasileiros e africanos e também para os europeus em busca de exotismo no Terceiro Mundo.

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