Pontes sobre águas turbulentas
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domingo, 28 de março de 1999
Por Dalia Acosta 
Havana, 29 (AE-IPS) - Um jogo de beisebol e um maratônico concerto demonstraram em apenas um dia quão próximos podem estar Cuba e Estados Unidos quando se consegue colocar essências culturais acima de divergências políticas.
"Estamos mudando os tempos", exclamou o rapper americano Michael Franti por volta da meia-noite de domingo, depois de três horas de música e canções compostas na última semana por compositores e interpretes de ambos países.
"As coisas não serão mais as mesmas a partir de agora. No beisebol pode-se perder um jogo, mas na música ganhamos todos", afirmou Franti a quase 5.000 pessoas reunidas no teatro Karl Marx de Havana.
O concerto, transmitido para todo o país pela televisão estatal, foi realizado depois de uma tensa partida entre os Orioles de Baltimore e uma seleção cubana que durou três horas e meia e terminou com a vitória da equipe americana.
O tempo parecia ter parado na tarde de domingo na ilha, as ruas estavam vazias e a única coisa que quebrava a tranquilidade eram os gritos de emoção das pessoas que acompanhavam o jogo pela televisão.
Esta foi a primeira partida de beisebol entre uma equipe profissional das Grandes Ligas dos Estados Unidos e um time cubano desde que em março de 1953 uma seleção profissional da ilha derrotou por cinco a três os Piratas de Pittsburgh.
Como era de se esperar por sua reconhecida paixão pelo beisebol, até o presidente Fidel Castro assistiu ao jogo, saudou os integrantes da equipe americana no campo e os recebeu depois na sede do Conselho de Estado.
"Se não tivessem estabelecido convites para a entrada, teria sido uma locura", disse um torcedor descontente, mas compreensivo quanto à decisão oficial de regular o ingresso no Estádio Latino-americano de Havana, com capacidade para 50.000 pessoas.
Para o comissário das Grandes Ligas Bug Selig, "sinceramente foi um evento espetacular" e ele declarou-se ansioso para que chegue o 3 de maio, quando está prevista uma partida de volta no Candem Yard de Baltimore.
"Sempre me senti muito bem quando jogo contra os cubanos. Sou um esportista e não gosto que seja dado conotações políticas aos jogo", disse o receptor dos Orioles, Charles Johnson, numa entrevista coletiva antes do encontro de domingo.
Algo semelhante, livre de conotações políticas, quiseram fazer sem conseguir os 44 artistas americanos e os 48 cubanos que durante a semana passada participaram da oficina de criação "Music Bridge- Puente Musical".
A intenção dos organizadores ficou clara logo no nome do concerto final, "Ponte sobre águas turbulentas", que os participantes pegaram emprestado de uma canção de Paul Simon que abriu a noite.
Reunidos pelo compositor e produtor americano Alan Roy Scott, os artistas dos dois países e alguns europeus participaram no dia 22 de um incomum sorteio para definir com que músicos trabalhariam durante uma semana.
A sorte uniu um dos maiores expoentes da música de concerto cubana, o pianista e compositor José María Vitier, com o trovador cubano Gerardo Alfonso e o rapper Franti.
A americana Joan Osborne cantou e dançou ao melhor ritmo dos melhores bailadores da ilha no som "Só contigo", o jazz se fundiu com o som, o blues com a trova tradicional cubana e o rock tornou-se bilingue.
Os convidados ao Karl Marx escutaram 24 canções que com frases distintas repetiam de uma forma ou de outra a mesma mensagem: "Não existem diferenças entre você e eu", "voltarei", "nunca, jamais, poderá se parar este ônibus", "quebram-se as distâncias".
"Não tenho nenhum medo em dizer abaixo o bloqueio apesar de me terem pedido para não politizar a noite", disse Franti na única referência direta da noite ao conflito cubano-americano dos últimos 40 anos.
Apesar de ter aumentado o número de artistas cubanos que atuam nos Estados Unidos e vice-versa, o concerto de domingo foi o primeiro do tipo desde que em 27 de março de 1979 foi realizada em Havana uma missão cultural Cuba-Estados Unidos.


