Poluição por ozônio em São Paulo passou 79 vezes do limite
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sexta-feira, 21 de abril de 2000
Por José Gonçalves Neto 
São Paulo, 22 (AE) - A poluição por ozônio vem atormentando a vida do paulistano. Em 1999, o padrão aceitável para o poluente foi ultrapassado durante 79 dias, de acordo com dados preliminares do novo Relatório de Qualidade do Ar da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb). A qualidade do ar esteve inadequada em cerca de 15% dos dias do ano e em cerca de 5% deles foi decretado estado de atenção.
Enquanto outros poluentes, como o monóxido de carbono e o dióxido de enxofre, apresentam tendência de queda, o ozônio, uma das substâncias mais agressivas à saúde, tem aumentado. Os gases, emitidos durante a combustão pelos cerca de 6 milhões de veículos em circulação na região metropolitana de São Paulo, são os principais responsáveis pela violação dos padrões de qualidade do ar.
O ozônio não é emitido diretamente no ar, mas formado pela reação de poluentes primários. Compostos orgânicos voláteis e óxidos de nitrogênio emitidos na queima incompleta de combustíveis ou pelo manuseio incorreto no abastecimento em postos de gasolina são os formadores do gás. Quando concentrado a cerca de 20 quilômetros da superfície, tem ação protetora ao filtrar os raios ultravioleta. No nível do solo, forma uma névoa seca e é um dos maiores agressores do sistema respiratório e imunológico.
Vento - O ozônio não fica restrito à área em que foi formado, podendo ser transportado pelo vento a vários quilômetros de onde seus componentes formadores foram emitidos.
Por isso, nem mesmo em parques ou áreas verdes as pessoas estão livres do problema. De acordo com o relatório, no Parque do Ibirapuera ocorreram os piores episódios. A qualidade do ar esteve má ou inadequada nos 50 dias em que foram registradas no parque ultrapassagens do padrão.
Representante do Greenpeace no Brasil, o físico Délcio Rodrigues acusa o governo de omissão. "Falta vontade política para resolver o problema." Segundo Rodrigues, programas como o da inspeção veicular e até mesmo o retorno do rodízio poderiam ajudar. "O programa de inspeção está há mais de dez anos na gaveta."
Com o programa de inspeção, os veículos teriam de passar por teste que mede o nível de emissão de poluentes na época do licenciamento. Se o nível estiver acima dos padrões, o dono do veículo terá de providenciar os reparos para adequar o carro às normas ambientais.
O secretário estadual do Meio Ambiente, Ricardo Tripoli, garante estar dialogando com a sociedade para que o problema seja resolvido. "Temos conversado com ONGs e entidades ambientais para buscar soluções." Ele descarta a volta do rodízio. "Os custos não justificaram os resultados."
Regulagem - Para o secretário, a inspeção veicular e o uso de um protetor que impeça o desperdício de combustíveis durante o abastecimento são opções mais adequadas. "É preciso que as pessoas colaborem, regulando seus carros e abastecendo no início ou no fim do dia para evitar evaporação excessiva do combustível", disse. "Temos tido algumas dificuldade para regulamentar a inspeção, mas ainda este ano teremos uma solução para o caso."
Segundo o gerente de Qualidade Ambiental da Cetesb, Cláudio Alonso, há uma diminuição progressiva na emissão de vários poluentes. Embora ainda mereça atenção, a redução nos índices do monóxido de carbono é considerada um avanço. Mas a emissão de dióxidos de nitrogênio e hidrocarbonetos ainda é alta. "O ozônio é uma preocupação em todo o mundo e nosso grupo está empenhado para melhor entendê-lo."
O aumento de internações hospitalares e atendimentos de emergência por crises asmáticas e problemas respiratórios está relacionado ao crescimento dos índices de ozônio. Sua ação danifica as células do sistema respirátório, provocando irritação e dificultando a respiração. Quando inalado, mesmo em baixas quantidades, causa problemas respiratórios agudos, agrava a asma e provoca inflamação dos tecidos pulmonares, além de danificar o sistema imunológico.
Gastos - Só em São Paulo são gastos anualmente cerca de US$ 2 milhões com mortes causadas por doenças relacionadas à poluição e US$ 1,1 milhão com internações e tratamentos. O poluente pode provocar uma redução temporária de 15% a 20% na capacidade respiratória em adultos saudáveis. De acordo com pesquisas da Agência Norte-Americana de Proteção Ambiental, os picos do poluente são acompanhados por uma aumento de até 20% nos atendimentos hospitalares.
No último relatório da World Resources Institute (WRI) sobre as condições de saúde das crianças no mundo, São Paulo fica ao lado da Cidade do México e de Pequim, na China, como as que apresentam as condições ambientais mais hostis para o desenvolvimento sadio na infância. Um estudo da Escola de Saúde Pública da Faculdade de Medicina de Harvard concluiu que a poluição reduz a expectativa de vida em até dois anos e meio.


