Niedzialki, Polônia (AE-AP) - Anaclet Kalondji recebe seus visitantes em sua casa com o mais comum dos costumes poloneses: beijando a mão das mulheres. Porém, na Polônia predominantemente branca, Kalondji não é comum. Nascido no país hoje chamado de Congo, ele é o único político negro eleito no pleito local no ano passado.
"Para mim, isso é normal. As pessoas já me conhecem há vários anos", conta ele durante uma entrevista, interrompida pelos cumprimentos de um dos 200 habitantes da vila onde mora, localizada a 220 quilômetros ao sul de Varsóvia. "Mas em escala nacional, isso é definitivamente surpreendente", adiciona com um sorriso.
Kalondji emigrou para a Polônia há mais de três décadas. Dez anos após a queda do comunismo e da abertura das fronteiras do país pela primeira vez em quase meio século, o país dá seus primeiros passos para confrontar enraizadas intolerâncias.
Minorias começam a insistir em seus direitos. Uma lei sobre estrangeiros foi modificada para regular o status dos centros de refugiados e para assegurar o direito dos que buscam asilo em ter um intérprete e possibilidades de apelação.
A imprensa está observando de perto as brigas motivadas por razões raciais e parou de usar termos ofensivos às minorias. Um indicativo das mudança de clima foi o sucesso musical "Makumba", sobre um estudante negro que vive na Polônia e que tinha de aguentar os constantes insultos dos poloneses. "Poloneses são racistas; ninguém gosta dos negros aqui."
A história polonesa de ocupações estrangeiras nos últimos 200 anos, pelos prussianos, austríacos e russos, e então os alemães nazistas antes dos comunistas, imbuíram um sentimento de que outras culturas ameaçam a identidade nacional dos católicos apostólicos romanos e brancos poloneses.
Os campos de morte nazistas da Segunda Guerra Mundial geram fortes acusações contra o anti-semitismo polonês. Quarenta e quatro anos de governo comunista depois da guerra significaram fronteiras fechadas que isolaram os poloneses das tendências mundiais de sociedade multiculturais. A política comunista negava oficialmente a presença no país de 1.5 milhão de alemães, judeus, bielo-russos e ucranianos. Tais condições nutriram o racismo que continua evidente na Polônia, onde as minorias raciais continuam a ser uma raridade, mas cujos números estão crescendo. Hoje já são aproximadamente 2 mil africanos e 40 mil asiáticos.
Emmanuel Olisadebe, um nigeriano que joga por um time profissional de futebol de Varsóvia, diz que alguns dos seus amigos negros vem sendo atacados em bairros operários. "Algumas vezes, na rua, as pessoas me xingam", conta ele. "Eu não consigo entender a razão, mas elas parecem irritadas".
Kalondji, que veio para a Polônia em 1966 após ser expulso da Bélgica por pertencer a um grupo comunista, tornou-se popular ao ensinar inglês e francês na escola secundária local e ao ajudar a administrar um escola de música. Por ter mais experiências internacionais do que a maioria dos habitantes da vila, ele os ajudou com correspondências para outros países e a traduzir documentos. Antes das eleições do ano passado, ele enviou convites para as reuniões de sua campanha a todos os eleitores. Ele foi eleito como um dos três líderes locais, cargos para os quais havia 26 candidatos que eram, com exceção dele, todos brancos.
Apesar de ser aceito por seus vizinhos, Kalondji sabe que sua cor de pele faz dele "algo muito distinto" na Polônia. "As pessoas dizem às vezes: "Olha, um negro", e ele nota um indicador evidente de que eles não são do seu vilarejo. Alguns negros dizem que têm percebido uma mudança na atitude entre os poloneses, que vem sendo expostos a pessoas diferentes de todos os lugares do mundo.
"Eu sei de pessoas que não tinham interesse em me conhecer antes de terem estado na Inglaterra ou nos Estados Unidos, onde há muitos negros", diz Mohamed Hasan, um estudante de administração de Serra Leoa, que trabalha no bar de um popular restaurante em Varsóvia. "Assim que voltam, isso muda".
Asiáticos também percebem o preconceito. Nguyen Trung Huynh, que veio do Vietnã socialista e tem duas barracas de comida nas ruas de Varsóvia, considera a Polônia um país de oportunidades, mas reconhece algumas dificuldades. Seus documentos são escrupulosamente checados por funcionários do governo, vizinhos reclamam por causa do barulho e da sujeira e criminosos exigem dinheiro. "Os poloneses que têm bares na mesma região não têm este tipo de problema", diz ele. Em resposta, alguns estrangeiros começaram a exigir seus direitos, apesar da pouca eficiência da lei contra crimes raciais no passado.
Samuel Fosso, um estudantes dos Camarões, sofreu ferimentos leves após ter apanhado de um homem bêbado na cidade de Wroclaw e viu sua reclamação ser ignorada pelos policiais. Ele persistiu e viu seu ofensor condenado. Fosso também abriu um processo contra o editor da revista mensal "Bom Humor", que traz piadas racistas. Trata-se do primeiro processo aberto por um não-polonês em busca de proteção dos direitos pessoais, diz o Comitê de Direitos Humanos de Helsinque, que o ajudou com o pedido. "No início, meus amigos poloneses não entenderam. Eles achavam que tais piadas eram normais", diz Fosso. "Só depois de eu ter feito todo aquele barulho foi que eles entenderam que por causa daquelas piadas as pessoas estavam sendo espancadas nas ruas".
Muitos poloneses parecem resignados às mudanças sociais e estão acompanhando a profunda transformação econômica e polícia, o que inclui a exposição a outras culturas. "Nós temos que nos acostumar aos estrangeiros", diz Barbara Maruszewska, uma balconista em Niedzialki. "Se nós quisermos ir para o exterior, temos que permitir que ele venham para cá". Mas, logo em seguida, ela acrescenta sua esperança pessoal de que a Polônia junte-se à União Européia. "Será o nosso tipo de Europa", o que significa um continente branco.

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