Poloneses relembram seu tratamento aos alemães no pós-guerra2/Mar, 11:10 Por Beata Pasek Varsóvia (AE-AP) - Trata-se de um cenário muito familiar dos tempos de guerra na Polônia: campos lotados com dezenas de milhares de prisioneiros, trabalhos forçados, espancamento, fome doença, morte. Mas estes prisioneiros não eram vítimas do holocausto nazista. Eles eram alemães aprisionados depois da Segunda Guerra Mundial e um livro, recentemente publicado em polonês, fala sobre o trauma vivido por essas pessoas e reabre algumas dolorosas feridas. "A vingança das vítimas. Alemães em campos poloneses 1944-1950", da jornalista alemã Helga Hirsch, foi lançado no mês passado na Polônia. Originalmente publicado na Alemanha em 1997, ele inclui amargos relatos de alemães aprisionados nos ex-campos de concentração nazista de Potulice, no noroeste da Polônia e em Swietochlowice, ao sul. Ninguém nega as atrocidades que foram cometidas contra os prisioneiros alemães. Mas os poloneses sobreviventes do holocausto enfurecem-se com a sugestão, expressa no título do livro, de que os próprios sobreviventes reativaram os campos numa atitude de vingança. "Nós nos sentimos ofendidos pelo livro", diz Jerzy Podralski, 68 anos, sobrevivente do campo em Potulice, antes que o local fosse convertido para abrigar alemães. "Repórteres gostam de títulos apelativos como este, mas não foram as vítimas que organizaram os campos". Centenas de milhares de alemães descobriram-se na zona controlada pelos soviéticos depois que da guerra, quando os vitoriosos Aliados deslocaram as fronteiras polonesas para o oeste, dentro do território alemão. As estimativas variam amplamente, mas historiadores poloneses concordam, no geral, que o governo comunista aprisionou 100 mil alemães, em sua maioria civis, que foram considerados como ameaças ao Estado. Pelo menos 15 mil morreram e o restante foi libertado em 1950. Hirsch, correspondente na Polônia do jornal alemão Die Zeit de 1989 a 1995, conta as recordações dos sobreviventes que falaram sobre os trabalhos pesados e cruéis espancamentos realizados pelos guardas, alguns dos quais eram ex-prisioneiros dos campos de concentração nazista. Adam Borowski, editor da tradução polonesa, rejeita os pedidos de cancelamento do projeto. Ele disse que não gosta do título do livro, mas o manteve porque é o que apareceu na edição alemã. Não se trata do primeiro trabalho nesta linha. Em "Olho por olho: a história não contada da vingança judaica contra os alemães em 1945", o jornalista norte-americano John Sack afirma que de 60 mil a 80 mil alemães morreram nos campos de internação muitos administrados por judeus, que foram ativados por Stálin através do governo comunista polonês. Enquanto muitos intelectuais consideram o livro de Sack, publicado em 1993, como uma polêmica anti-semita que poderia ser explorado pela ultra-direita, a aproximação de Hirsch parece ter despertado exames de consciência. "Eu tenho em alta consideração a investigação feita por Hirsch", diz Witold Kulesza, ex-presidente da comissão que investigou crimes das eras nazistas e comunistas. "Fatos continuam a ser fatos, mas nós iremos discutir a avaliação dos fatos". Ele disse que é importante lembrar que as polícias secretas soviéticas e polonesas aprisionaram dissidentes poloneses assim como alemães, como parte de um esforço para apagar a oposição ao comunismo. Andrzej Paczkowski, um historiados polonês que escreveu uma crítica ao livro de Hirsch, considerou o debate como "um processo terapêutico, necessário para que os poloneses percebam suas más ações". Desde o colapso do comunismo, uma década atrás, a comissão polonesa vem colecionando acusações contra pelo menos um comandante de campo de concentração. Czeslaw Geborski of Katowice, que administrou uma prisão em Lambinowice, no sudoeste da Polônia, é acusado de atear fogo aos alojamentos da prisão e de atirar contra os prisioneiros que fugiram. Espera-se que ele seja julgado no final deste ano. Em 1998, a Polônia pediu a extradição de Israel de Solomon Morel, um polonês judeu que comandou um notório campo em Swietochlowice. Israel recusou-se, alegando que o regulamento de limitações havia expirado e que as acusações não eram reconhecidas como genocídio sob a lei israelense.