Políticos usam seca para ficar no poder, diz bispo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 28 de abril de 1998
Agência Estado 
O bispo de Afogados da Ingazeira (PE), Dom Francisco Austregésilo de Mesquita Filho, disse ontem que muitos políticos do Nordeste usam o flagelo da seca para manter-se no poder. Com o povo passando fome é mais fácil comprar votos, afirma o religioso, que participa da 36ª Assembléia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Indaiatuba, no interior de São Paulo.
De acordo com o religioso, essa seria uma das razões pelas quais a seca continua sendo um problema crônico para o Nordeste. Os políticos não têm interesse em resolvê-lo, afirma. Segundo ele, a seca desse ano foi a mais anunciada de todas. Mesmo assim, nenhum governador, prefeito ou deputado fez alguma coisa.
O bispo conta que a população esperou pela chuva até o dia 19 de março, consagrado a São José. Não veio a chuva, nem ajuda para os flagelados, diz. Para Dom Francisco, os governadores estão esperando pelas próximas eleições. Em outubro, o preço do voto estará mais baixo porque os retirantes farão qualquer coisa para não morrer de fome.
Para Dom Francisco, vários fatores demonstram que a classe política não tem interesse em acabar com a seca. Entre eles, o religioso observa que, apesar de vários políticos de expressão nacional terem saído do nordeste, a região continua enfrentando o problema todos os anos. O Inocêncio de Oliveira (líder do PFL e da bancada governista no Congresso), por exemplo, é da minha diocese, conta.
Aos 74 anos, natural de Reriutaba (CE), o religioso enfrentou a primeira escassez de água quando tinha oito anos e diz que, passado todo esse tempo, a situação dos flagelados continua dramática.


