Istambul, 10 (AE-IPS) - Os dirigentes políticos curdos pretendem aglutinar toda a oposição da Turquia num novo projeto que denominam Movimento Democrático, depois da prisão e condenação à morte de seu líder, Abdullah Ocalan.
Nesse contexto, o chamado de Ocalan, líder do separatista Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), à constituição na Turquia de uma "república democrática" não foi apenas um canto de cisne.
À medida que se estanca a guerra civil que em 16 anos deixou 35 mil mortos no sudeste da Turquia, onde o PKK promove uma luta armada pela criação de um estado independente, os políticos curdos intensificam sua campanha para forjar o Movimento Democrático de turcos e curdos.
O pró-curdo Partido do Povo Democrático (Hadep) conquistou no ano passado muitas vitórias em eleições locais com o respaldo de personalidades turcas de esquerda no sudeste de maioria curda.
Por isso, muitos políticos curdos defendem a criação de um partido turco que lhes permita batalhar por reformas democráticas.
"O Hadep sempre pretendeu a criação de um partido turco, mas desafortunadamente não pôde deixar de ser discriminado como partido de curdos", disse à IPS Sirri Sakik, dirigente expulso do parlamento turco em 1994 acusado de separatismo.
"Nosso partido foi incapaz de apresentar uma alternativa ao atual sistema político. À medida que as armas se silenciam e as circunstâncias mudem de maneira positiva, nos propomos a criar um Movimento Democrático amplo em todo o país", sustentou Sakik.
A primeira vez que os curdos surgiram no cenário político turco foi em 1991, quando o partido HEP forjou uma aliança eleitoral com o Partido Populista Social Democrata que conquistou 22 cadeiras no parlamento. O HEP converteu-se logo no DEP, que rapidamente foi tornado ilegal, acusado de ser o "braço legal" do PKK.
O Hadep, sucessor do DEP, venceu em quase todos os municípios do sudeste nas eleições de abril de 1999, mas não conseguiu ter representação parlamentar, já que ficou com apenas quatro por cento dos votos nacionais e o mínimo exigido para tal é 10 por cento.
Quatro ex-deputados do DEP, entre eles Leyla Zana, cumprem penas de 15 anos de prisão por acusação de separatismo. Outro legislador, Mehmet Sincar, foi assassinado em 1992 na localidade de Batman, no sudeste.
Mais de 100 integrantes do partido foram mortos na guerra sem quartel promovida pelo governo turco contra o PKK entre 1992 e 1996.
A Corte Constitucional está estudando acusações de separatismo contra o Hadep, mas "nossa intenção não é criar um substituto porque iriam proibi-lo", disse o advogado do partido, Yusuf Alatas, um dos defensores da formação do Movimento Democrático.
"Quando absolverem o Hadep, continuaremos a campanha para ampliar o Movimento", assegurou Alatas.
"Propomos reaglutinar a oposição em todo o país. A princípio parecerá de natureza mais curda, mas este é apenas o começo de um futuro bloco de partidos e forças democráticas", disse Akn Birdal, ex-presidente da Associação dos Direitos Humanos, que em 1999 sobreviveu a um atentado.
"Mais do que uma oposição amorfa, temos confiança de fundar um partido político, um projeto que já entusiasma forças democráticas e de esquerda", acrescentou Birdal.
"Cinquenta e um por cento dos votantes não apóiam nenhum dos partidos existentes. Há um vazio político que pode ser preenchido", disse, baseado nas últimas pesquisas a respeito.
A plataforma do Movimento Democrático inclui a reivindicação de liberdades individuais, de associação e de expressão e os direitos das minorias.
Também se menciona a solução da questão curda com base na igualdade dos cidadãos, a reestruturação administrativa e a descentralização, assim como o compromisso de respeitar convenções internacionais sobre direitos humanos.
"A nova posição do PKK abriu caminho para uma nova política"
afirmou Mehmet Torus, de Hadep.

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