Recife, 28 (AE) - Políticos, populares, intelectuais e religiosos alternaram-se, durante todo o dia de hoje, no velório do corpo do arcebispo-emérito de Olinda e Recife, d. Hélder Câmara, na Igreja das Fronteiras, no bairro Boa Vista, em Recife. "Dom da paz", "profeta", "símbolo da luta pelos direitos humanos" e "santo" foram algumas das expressões usadas para qualificar o religioso, que morreu ontem (27), às 22h20, de insuficiência respiratória, aos 90 anos.
O governador Jarbas Vasconcelos (PMDB) e o prefeito do Recife, Roberto Magalhães (PFL), decretaram luto oficial de três dias no Estado e capital, respectivamente. O vice-presidente Marco Maciel, representando o presidente Fernando Henrique Cardoso, disse que a ação pastoral de d. Hélder passou os limites da arquidiocese. "Sua voz, na defesa clara da opção de uma igreja pelos pobres, se fez ouvir em praticamente todo o mundo e as suas idéias contribuíram para a atualização da doutrina social da Igreja, a exemplo da sua destacada participação no Concílio Ecumênico 2", afirmou, ao ressaltar que o vigor intelectual do religioso, expresso em sermões e livros, tornou-o uma das vozes mais influentes deste século.
O deputado estadual Pedro Eurico (PSB), que foi presidente da Comissão de Justiça e Paz da arquidiocese, sob o comando de d. Hélder, de 1977 a 1982, disse que o religioso foi sábio até no dia da morte, que coincidiu com os festejos dos 20 anos de anistia política.
"Ele também abraçou a causa da anistia, mas a sua principal causa foi a solidariedade com os pobres, a luta pelos direitos humanos e o combate a todas as formas de violência", frisou.
Os que estiveram ao lado de d. Hélder nos 21 anos de arcebispado, confiam que a morte dele possa servir de impulso aos que seguiam a filosofia e prática voltada para uma igreja dos pobres.
"O que caracteriza um profeta é que a sua morte faz germinar mais forte a sua idéia", disse o amigo e antigo colaborador de d. Hélder, frei Aloísio Fragoso. "Embora as militâncias de base não tenham recebido estímulo da Igreja e do Vaticano, acredito que o movimento popular vai se fortalecer."
O padre Thiago Thorlby, diretor da Comissão Pastoral da Terra (CPT), confessou sentir um certo medo. "Mas o contrário do medo não é a coragem, e sim a fé que d. Hélder tanto propagou", afirmou, emocionado. Ele contou que uma das imagens que guarda com toda nitidez na memória é a de d. Hélder e a do arcebispo emérito de João Pessoa, d. José Maria Pires, ajudando a tanger o gado do dono de um latifúndio que queria expulsar moradores antigos da terra, no Agreste paraibano, na década de 70. "Ele era realmente um filho de Deus e deixou um exemplo a seguir", observou.
O velório teve início à 1 hora e, a partir das 4h30, foram celebradas missas de hora em hora, por padres antigos e novos ligados a d. Hélder. O primeiro deles foi o padre João Tubben, que concelebrou 750 missas com o religioso nos últimos cinco anos.
Pouco antes das 6 horas, chegou a irmã do religioso Nair Câmara, que mora no Rio e viajou num avião do governo de Pernambuco, que foi buscá-la por ordem do governador. O outro irmão de d. Hélder, Mardônio, não compareceu. Por volta das 10 horas, começava a se formar uma fila de um quarteirão defronte à igreja, pelos que foram se despedir do arcebispo.
A pedido de d. Hélder, o corpo foi velado na Igreja das Fronteiras - onde ele viveu os últimos 31 anos, numa pequena residência, aos fundos - e sepultado na Igreja da Sé, em Olinda, onde estão os restos mortais de outros arcebispos de Olinda e Recife. O enterro estava previsto para as 19 horas. Ele havia expressado o desejo de um funeral simples, sem cortejo nem pompa.
De acordo com Zezita Cavalcanti, que foi secretária de d. Hélder por 35 anos e estava ao lado dele no momento da morte, ele teve uma passagem tranquila e serena. "Foi uma graça muito especial concedida por Deus por todo o bem que ele fez", observou. "Foram 90 anos de amor ao próximo, de olhar pelos desvalidos e excluídos."
Na avaliação de frei Aloísio Fragoso, a morte do religioso chegou em boa hora. "Um comunicador como ele se angustiava ao não encontrar palavras para se expressar", afirmou. "Há cinco anos, ele começou a ter lapsos de lucidez e de memória, o que se agravou nos últimos dois anos."
D. Hélder passou, na semana passada, quatro dias internado no Hospital Português, por causa de uma infecção urinária. Recebeu alta no domingo (22), mas pegou uma gripe que evoluiu para pneumonia, provocando a insuficiência respiratória.

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