Brasília, 31 (AE) - Ninguém mais colocava hoje em dúvida a realização de duas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) para apurar irregularidades no Judiciário e no Sistema Financeiro. "Quero ver quem vai pagar o preço de inviabilizar a CPI dos Bancos", desafiou o presidente nacional do PMDB e líder do partido no Senado, Jáder Barbalho (PA), na noite de ontem (30), durante um jantar informal em Brasília, com a presença dos principais caciques do partido.
A afirmação de Barbalho aconteceu pouco tempo depois que ele teve um encontro de uma hora com o presidente Fernando Henrique Cardoso no Palácio do Planalto e acabou sendo interpretado como uma posição definitiva. Barbalho afirmou que, em nenhum momento, recebeu qualquer tipo de apelo do governo para amenizar o discurso em relação ao assunto. "Agora não dá mais para recuar", avaliou.
Em relação à intenção do presidente do Senado em negociar o adiamento das CPI do Sistema Financeiro, Barbalho foi irônico. "Antonio Carlos instala a CPI dele num dia e a CPI dos Bancos fica para o dia seguinte", disse. "Dessa forma, as duas CPIs serão manchete dos jornais", afirmou o senador paraense. Mesmo assim, ele mostrou indiferença por ACM, dizendo que não irá o procurar para negociar a oportunidade da CPI proposta pelo PMDB. "Não recebi nenhum convite de ACM para conversar", limitou-se a afirmar.
Também ficou clara a disposição do PMDB em enfrentar o projeto de poder pessoal de ACM visando a eleição de 2002. Barbalho demonstrou o desconforto com o que denominou de a "santíssima trindade de ACM".
Segundo a avaliação dele, ACM tem o Executivo nas mãos, encurrala o Judiciário e ainda quer mandar no Congresso. "Assim é demais!" O partido vê em ACM o principal adversário para a sucessão de Fernando Henrique. Por isso, a intenção de criar a CPI dos Bancos para evitar o brilho do senador baiano.
No jantar, que contou com a presença dos ministros da Justiça, Renan Calheiros, e dos Transportes, Eliseu Padilha, do presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), do líder do PMDB na Casa, Geddel Vieira Lima (BA), e do deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), além do ex-deputado Moreira Franco, ficou explícita a insatisfação do partido com o tratamento que vêm recebendo do Palácio do Planalto. Segundo um influente cacique, o PMDB cansou de ser o "patinho feio" da aliança e passará a cobrar um preço caro pela fidelidade: um tratamento igual ao do PFL.
O partido ainda não engoliu o corte de 48% no orçamento do Ministério dos Transportes e a demora para sair as nomeações da lista de indicados do PMDB, como os ex-deputados Wagner Rossi e Moreira Franco.
Padilha ainda acreditava na possibilidade de os partidos não indicarem os membros para as duas CPIs, o que tornaria inviável o funcionamento das comissões. "O jogo está acertado com o Palácio", garantia Padilha, numa mesa, sem saber que a menos de 10 metros de onde estava, Barbalho radicalizava o discurso.
Hoje, assessores de Fernando Henrique ainda acreditavam na possibilidade de empurrar com a barriga o andamento das CPIs com a falta de indicação de nomes. A avaliação no Palácio do Planalto é que a falta de um articulador político do governo no Senado acabou favorecendo a criação das duas CPIs. Até hoje, ainda não foi definido o líder do governo, uma vez que existe uma disputa entre os senadores José Fogaça (PMDB-RS) e Ney Suassuna (PMDB-PB). Mas não é só dentro do governo que se verifica a inoportunidade das CPIs. No jantar de ontem, Temer alertou sobre o risco sistêmico dessas CPIs, principalmente durante um grave crise financeira internacional.
Hoje, durante a cerimônia de combate às drogas, realizada no Palácio do Planalto, Fernando Henrique, foi enfático. "É difícil vencer o adversário", disse. "Muitas vezes, dá mais trabalho acalmar os aliados do que ganhar dos adversários", completou. Ao perceber as risadas do senador tucano Arthur da Távola (RJ), o presidente foi além. "Estou vendo o senador Arthur da Távola sorrindo, mas eu não me referi a ninguém em particular ou nenhuma instituição como o Senado da República porque eu não faria isso", completou o presidente, sorrindo.

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