Policial negociava depoimento por redução de pena
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quinta-feira, 30 de março de 2000
Por Eliane Azevedo 
Rio, 31 (AE) - Um dos quatro policiais civis libertados pela juíza substituta da 3.ª Vara Federal Criminal do Rio, Cláudia Valéria Bastos Fernandes, negociava com o Ministério Público (MPF) e a Polícia Federais (PF) prestar um depoimento detalhado sobre as extorsões praticadas pelo grupo - fornecendo ainda os nomes de todos os integrantes da quadrilha -, em troca de uma possível redução de pena.
Segundo fontes ligadas à investigação, estava-se a um passo de prender delegados e autoridades que, de dentro da polícia, comandam as "mineiras" (extorsões) contra traficantes. A PF teria uma fita de uma conversa telefônica de um dos policiais com um outro, que não está preso, falando de demais integrantes da quadrilha. A decisão da juíza, para essas fontes, fez o caso voltar à estaca zero.
Hoje, o MPF entrou com um recurso na Justiça Federal contra a revogação da prisão dos quatro, os detetives Alexandre Campos Farias, Carlos Coelho Macedo, Pedro Carlos Ferreira e Carlos Henrique da Silva.
Eles estavam detidos há três meses, sob a acusão de extorsão ao traficante Marco Antonio da Silva Tavares, mais conhecido como "Marquinho". Nos telefonemas à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico na Câmara dos Deputados, à Corregedoria de Polícia e ao Ministério Público Estadual (MPE), o traficante carioca Luiz Fernando da Costa, o "Fernandinho Beira-Mar", acusou Farias e Macedo de ter sequestrado a ex-namorada Joelma Carlos de Oliveira e dois primos dele.
Os dois policiais, libertados pela juíza na quarta-feira (29) à noite, deveriam ter prestado depoimento ontem (30) à CPI, mas não compareceram. Segundo informações prestadas pela Corregedoria ao MPF, eles não foram encontrados nos endereços residenciais.
A juíza não retornou as ligações para uma entrevista. Não é a primeira decisão polêmica da juíza, que entrou na Justiça Federal em 1998. Foi ela, como substituta na 2.ª Vara Federal Criminal, quem revogou, em setembro, a prisão preventiva do funcionário da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Temílson de Resende, o "Telmo", principal suspeito do grampo no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
A decisão de Cláudia foi derrubada quando o juiz titular
Alexandre Libonatti, retornou e expediu novo mandado de prisão contra o agente.
Hoje, a vice-presidente da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe), Simone Schreiber, afirmou que a entidade defende a posição de que a juíza não deve prestar depoimento à CPI. "Temos de defender a independência do juiz dentro do processo", disse. "Pode-se questionar o acerto, a Justiça e até a legalidade de uma decisão judicial, mas dentro das instâncias do Judiciário e não no âmbito de uma CPI."


