Campinas, SP, 22 (AE) - O investigador da Polícia Civil Luiz Roberto Lopes, de 44 anos, conhecido como "Pimenta", foi encontrado morto hoje pela manhã no banheiro da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise), onde trabalhava, em Campinas. Segundo o delegado titular da Unidade, Miguel Voigt Júnior, ele se matou com um tiro no peito. O policial havia sido convocado para depor à CPI do Narcotráfico, na próxima sexta-feira (26), em Brasília.
Lopes foi citado pelo ladrão de cargas Gilmar Siqueira Leite como um dos policiais da cidade suspeitos de participar do narcotráfico. Ele deveria ter prestado depoimento à CPI na última sexta-feira (19), em Campinas, mas não compareceu alegando problemas de saúde. Além dele, outros 13 integrantes da Polícia Civil em Campinas foram convocados para depor em Brasília.
Duas cartas manuscritas deixadas pelo investigador mostram, segundo o delegado, que Lopes premeditou sua morte. Uma delas, cujo teor não foi divulgado, é endereçada à família do policial, que era casado, tinha dois filhos e dois netos. A outra é dirigida aos seus "superiores" da Polícia Civil. No texto, ele compara a CPI à "inquisição". "Declaro, a quem possa interessar, que sou um funcionário correto", escreveu.
Para o delegado da Dise, Lopes não suportou ter seu nome entre os suspeitos de fazer parte do narcotráfico. "Ele considerava a acusação injusta", disse Voigt Júnior. Segundo o delegado, o investigador tentava há mais de cinco anos recuperar um filho viciado em drogas.
"Alguém que vive esse drama na própria família não poderia estar ligado ao narcotráfico", afirmou. Antes de Lopes chegar à delegacia, sua mulher telefonou para Voigt Júnior pedindo ajuda porque o marido estava "muito deprimido".
Voigt Júnior disse que o investigador chegou à delegacia por volta das 8 horas, como fazia todos os dias. "Ele estava muito pálido, deprimido e com medo de ser preso", contou. O delegado disse que tentou tranquilizá-lo, explicando que já havia entrado em contato com advogados para ingressar com um pedido de habeas corpus preventivo, mas ele interrompeu a conversa e deixou a sala.
"Ainda lhe perguntei se estava tudo bem e ele respondeu que sim", conta. Lopes, segundo o delegado, dirigiu-se para a sala dos investigadores e, por volta das 8h30, desceu até o andar de baixo e trancou-se no banheiro. Os outros policiais ouviram um disparo e correram para o local. A porta foi arrombada por uma equipe do Corpo de Bombeiros. Lopes foi encontrado caído, com um tiro no peito.
Durante 40 minutos, uma equipe de paramédicos do Corpo de Bombeiros tentou reanimar o policial, mas ele chegou morto ao hospital Mário Gatti. Técnicos do Instituto de Criminalística fizeram o levantamento descritivo e fotográfico do local, além de exame residuográfico nas mãos da vítima. A arma utilizada por Lopes, um revólver calibre 38 da Polícia Civil, será submetida a exame de balística.
O clima entre os policiais da delegacia era de tristeza e revolta. Ninguém fala abertamente, mas todos acreditam que o ladrão de Cargas Gilmar Siqueira Leite estaria se aproveitando da CPI para vingar-se. Há cinco anos, Lopes foi o investigador responsável pela prisão de Leite, que vinha cumprindo pena em Piracicaba. Em 23 anos de trabalho, Lopes tinha uma ficha limpa na corporação. Ele estava lotado na Dise desde março desse ano. Antes, trabalhou no 10 Distrito Policial.
Embora demonstrando descontentamento com o trabalho da CPI, o delegado preferiu não fazer declarações. "Prefiro ficar calado para não acusar um órgão superior", disse. Voigt Júnior disse estar preocupado com o estado psicológico dos policiais convocados pela CPI. "Há um clima de temor, porque todos que sentam naquela cadeira saem presos", disse.
O sub-relator da CPI para Campinas, deputado Robson Tuma (PFL-SP), estava em São Paulo quando recebeu a notícia sobre a morte do investigador. À tarde, ele viajou para a cidade a fim de obter detalhes com o delegado da Dise. "Vou exigir um aprofundamento das investigações para constatarmos se a tese de suicídio se confirma", disse.
Para o parlamentar, a morte do investigador não deverá afetar o trabalho da CPI. "É um fato isolado que não compromete nossa atuação, disse. Ele também disse não estar preocupado com as críticas aos métodos usados pela CPI. Tuma, como os demais parlamentares que integram a equipe, afirmam que a CPI tem um regimento próprio e que não pode ser comparada a um tribunal do júri.
A CARTA DEIXADA PELO INVESTIGADOR LOPES: "Aos meus superiores: Eu não compareci ao fórum para ser ouvido não porque devo à justiça. Foi por vergonha. A maneira que as pessoas que eram simples testemunhas eram tratadas pela CPI, com humilhação. Inquisição não, justiça sim. Estou doente, sem dinheiro para remédios. Às vezes não saio para almoçar por não ter dinheiro e falava para os colegas que não tinha fome, não podia engordar. Tenho muito orgulho de ser policial e não estragaria minha vida, porque tenho uma família que amo muito e pessoas que também amo muito. Declaro a quem possa interessar que sou um funcionário correto e cumpro a minha obrigação. Nada tem mais valor para mim do que o meu nome pessoal e da Polícia Civil. Chefia, por favor, não deixem manchar o nome da Polícia Civil. Luiz Roberto Lopes

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