Policiais são suspeitos de espancar chinês
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sexta-feira, 05 de setembro de 2003
Luciana Nunes Leale Roberta Pennafort<br> Agência Estado 
RIO - Diante da conclusão do Instituto Médico Legal (IML) de que o comerciante chinês naturalizado brasileiro Chan Kim Chang, de 46 anos, morreu em consequência de espancamento, o governo do Rio intensificou as investigações sobre a participação de quatro agentes penitenciários no crime. A Polícia Civil já pediu a prisão temporária dos suspeitos por 30 dias, por determinação da governadora Rosinha Matheus. ''Não vamos compactuar com tortura no nosso governo'', afirmou Rosinha.
Segundo o diretor do IML, Roger Ancillotti, a lesão no crânio só pode ter sido provocada por choque muito forte. Os hematomas verificados no braço e antebraço direitos de Chang indicam que ele tentou se defender de agressões.
''Essa conclusão é incompatível com autolesão e nos leva a concluir que houve ação externa. Acredito que ele foi vítima de ação violenta provocada por outras pessoas e não ele mesmo'', afirmou o chefe da Polícia Civil, Álvaro Lins, descartando a versão apresentada pelos agentes penitenciários de que o comerciante teve uma crise nervosa e bateu com a própria cabeça em um arquivo de uma sala do presídio Ary Franco, localizado no subúrbio de Água Santa.
O delegado Marcelo Fernandes, da Corregedoria Interna da Polícia Civil, investiga o crime de homicídio qualificado, hediondo, com pena de 12 a 30 anos de prisão. Policiais da Delegacia de Homicídios também trabalham no caso.
Álvaro Lins disse que, dependendo da apuração, o crime de tortura poderá ser adicionado ao de homicídio. O chefe da Polícia Civil informou que o objetivo é descobrir os motivos que levaram ao espancamento. ''Foi por que queriam a senha do cartão de crédito? Foi por que ele não quis ser fotografado? Isso vai ser esclarecido'', disse Lins.
Segundo o coordenador do Disque-Denúncia, Zeca Borges, a informação mais consistente recebida pelo serviço até agora, embora anônima, revelou muitos detalhes sobre a tortura e confirma versão de que Chang foi espancado para revelar a senha do cartão de crédito, apreendido pela Polícia Federal com os US$ 30 mil, no aeroporto Tom Jobim. Os nomes dos suspeitos foram mantidos em sigilo pela Polícia Civil, com o argumento de que a divulgação atrapalharia as investigações.
Diante da gravidade do episódio, a governadora reuniu as principais autoridades da área de segurança em um encontro, no Palácio Guanabara, com o cônsul geral da China no Rio, Li Zhongliang. ''Isso não pode acontecer, seja a um chinês, seja a um brasileiro'', declarou o diplomata ao fim da reunião. Depois da saída do cônsul, a reunião continuou por mais uma hora, quando Rosinha exigiu o máximo de rapidez e rigor com os guardas penitenciários envolvidos.
Segundo o secretário de Administração Penitenciária, Astério Pereira dos Santos, os agentes não tinham sido afastados até a tarde de ontem porque a participação de alguns deles ainda estava sendo apurada.
As investigações indicam que, além dos agentes, houve participação de presos no espancamento que levou Chang à morte. Os detentos do Ary Franco, que prestarem informações sobre o caso, serão levados para outros presídios.
Três conselheiros da Ordem dos Advogados do Brasil, seção Rio, serão designados na próxima segunda-feira pelo presidente, Octavio Gomes, para acompanhar as investigações e dar apoio jurídico à família de Chang.


