Policiais são reconhecidos por testemunha da CPI
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quarta-feira, 12 de abril de 2000
Por Daniel Gonzales 
São Paulo, 13 (AE) - Os deputados federais da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico colocaram, na madrugada de hoje, três policiais do Depatri acusados de extorsão, tráfico de drogas, liberação irregular de presos e roubo de cargas frente a frente com a testemunha-chave Laércio da Cunha, que ontem havia reconhecido nove policiais do departamento como integrantes do esquema. Na acareação, que começou por volta de 2h e terminou às 4h30, Laércio, encapuzado, repetiu todas as denúncias diante do delegado Marcelo Teixeira Lima e dos investigadores Daniel Rubens de Oliveira e Celso dos Santos. Os três policiais negaram a maioria das acusações. Os dois investigadores chegaram a bater boca com Laércio, que é assaltante e ex-informante da polícia.
A sessão ocorreu depois que o casal Wagner e Ivonete Penhalves, que prestou depoimento por volta de meia-noite, denunciou outros dois policiais do Depatri, que também já haviam sido reconhecidos por Laércio, por extorsão e invasão de domicílio. Um delegado e dois investigadores da Polícia Civil do muncípio de Praia Grande, no Litoral de São Paulo, também foram denunciados por ameaças ao casal.
O primeiro a ficar diante de Laércio foi o delegado Lima. Escondido por uma barreira formada por homens da Polícia Federal
a testemunha tirou o capuz diante do delegado, que afirmou não conhecê-lo. Mas Laércio garantiu que, por várias vezes, foi ao gabinete de Lima para conversar com ele, quando este era titular da 1.ª Delegacia do Depatri, até o ano passado, chegando até mesmo a fazer diligências nos Estados da Bahia e Rio de Janeiro com equipes da delegacia. Já os dois investigadores afirmaram conhecê-lo, mas disseram que, na época em que trabalhavam com ele, não sabiam que Laércio era bandido.
"O objetivo de todas essas operações era pegar o dinheiro de criminosos", disse a testemunha. Lima afirmou que "não poderia falar de fatos que não conhece" e que "não tem acesso a fontes de seus investigadores." Quanto a Oliveira e Santos, Laércio citou vários achaques e desvio de cargas apreendidas pelos policiais. "Eles apreenderam uma carga de pneus e velas de automóvel há algum tempo. Lembra, Oliveira? Você encheu uma perua com 24 mil velas e elas desapareceram", disse a testemunha, olhando para o investigador. "Isso é fantasioso", afirmou Oliveira. "Em outras ocasiões", continuou Laércio, "tentaram extorquir um bandido que produzia documentos falsos aqui em São Paulo. Ele só tinha uma picape, mas não quiseram, o negócio era dinheiro. E, uma vez, denunciei um receptador de Recife. Foram lá buscá-lo, ele voltou preso e tiraram R$ 8 mil dele", declarou. "Uma vez, também fomos ao Rio para prender o assaltante de bancos e carros-forte Antônio Silvestre, o Pintado. Mas ele não foi preso e nunca será. O pessoal só quer o dinheiro dele."
Questionado pelo deputado Eber Silva, o delegado Lima também não soube explicar claramente por que em diversas ocasiões investigadores sob seu comando saíram de São Paulo para fazer diligências em outros Estados, sem mandado de prisão, o que é ilegal. O objetivo, segundo Laércio, era extorquir bandidos. Uma dessas operações foi feita há alguns meses, quando policiais do Depatri foram à Bahia para tentar prender um receptador de carros roubados conhecido por Laranjeira.
A operação não teria sido informada ao comando da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. "Esse bandido é tão importante assim que justifica uma operação dessas?", perguntou Silva ao delegado, que confirmou a viagem. "Eles levaram um ofício ao secretário adjunto da Segurança do Estado." Na ocasião, policiais militares da Bahia abordaram os policiais paulistas, depois que estes prenderam o assaltante. Laranjeira ficou numa delegacia na cidade de Vitória da Conquista. "Desconheço se ele continua preso", disse o delegado. "Misericórdia! O senhor faz uma operação dessas e não sabe?", perguntou o deputado.
Robson Tuma (PFL-SP) apresentou declarações do Imposto de Renda do delegado. "Antes de conhecer Laércio, nos anos de 95 e 96, a sua evolução patrimonial foi negativa", disse Tuma. "De repente, em 98, quando teve contato com a testemunha, a declaração foi de que sobraram R$ 29 mil de seus rendimentos. O senhor sabe que isso é sonegação fiscal?", perguntou o deputado ao delegado. "Nunca tive problemas com a Receita Federal", replicou Lima. "Vou encaminhar essas declarações à Corregedoria da Polícia Civil para que se abra um processo administrativo por sonegação fiscal", disse Tuma.
Os dois investigadores também foram citados pelo deputado Celso Russomano (PPB) por já terem respondido a processos por abuso de poder, prisão indevida e desobediência a ordem judicial. Além disso, eles também não souberam explicar como Laércio, fugitivo da Penitenciária de Hortolândia (SP) virou informante da polícia.


