ZRZE, Iugoslávia, 16 (AE-AP) - Vilas em chamas. Soldados sérvios bem alimentados fazendo o "V" da vitória. Dentro de Kosovo, não há sinais de que os sérvios estão amedrontados e fugindo da Otan.
Ao invés disto, existe evidência de que os albaneses kosovares continuam não sendo queridos na província. E que a polícia sérvia e unidades do exército da Iugoslávia estão se preparando para um longo conflito, depois de mais de três semanas de campanha aérea da Otan visando fazer com que Belgrado aceite uma solução política para a província rebelde.
Escoltados por pessoal do exército sérvio numa viagem de 36 horas que terminou nesta sexta-feira, repórteres em Kosovo viram o sangrento resultado do que autoridades dizem era a carnificina da Otan contra um comboio de refugiados albaneses étnicos.
Mas eles também viram partes de vilas que viraram fumaça, apoiando testemunhos de refugiados de uma contínua pressão sérvia para expulsar albaneses de suas casas. Também eram evidentes tanques escondidos em buracos cavados, canhões chamariz para atrair fogo da Otan - e um alto moral entre as unidades do exército e da polícia que supostamente são os alvos dos ataques da Otan.
As limitações do que a Otan chama de limitada campanha aérea eram evidentes na faixa visitada de Kosovo. Bases e um depósito destruídos atestavam o devastador golpe dos ataques aéreos da Otan em Gnjilane, cerca de 30 quilômetros a sudeste de Pristina.
Mas lá, como nos outros lugares, policiais e soldados se locomoviam livremente em veículos civis sem temerem os ataques. Outros relaxavam em cafés na beira das estradas ou em fortificações cercadas com sacos de areia.
"Podemos ficar esperando sem problemas até esta guerra acabar", disse um policial com um uniforme azul de camuflagem, falando em alemão numa das poucas paradas feitas durante a viagem. "Somos pacientes - por meses ou anos, temos tempo".
Tais contatos com sérvios - civis ou em uniforme - foram raros. Organizada pelo exército iugoslavo, a viagem, que entrou e saiu de Kosovo por Bujanovac, 40 quilômetros a sudeste de Pristina, a capital da província, tinha outro objetivo.
Ela tinha a proposta de apoiar as declarações oficiais de que um ataque aéreo da Otan atingiu refugiados albaneses-kosovares, matando 75 e ferindo muitos outros, e pedidos por visitas a outros lugares da província foram recusados.
Repórteres levados de ônibus para os arredores de Zrze, cerca de 50 quilômetros a sudoeste de Pristina, viram arrepiantes sinais de várias explosões - corpos e partes de corpos carbonizados, uma cabeça abandonada num campo e tratores destruídos e furgões abandonados perto de grandes crateras.
Apesar das garantias da Otan de que o alvo era um comboio armado, civis albaneses étnicos, falando por intermédio de tradutores oficiais sérvios, disseram que apenas civis foram atingidos pelo ar. Vários estavam em lágrimas, enquanto contavam sobre familiares mortos no ataque.
Por toda a estrada, entretanto, havia sinais de uma contínua campanha contra albaneses étnicos na província, captados da parte de cima de um ônibus de dois níveis do exército e de rápidas conversações com residentes.
Numa parte da estrada entre Zrze e Prizren eram vistas centenas de casas destruídas, agrupadas em várias vilas. Muitas delas estavam queimadas mas não destroçadas, sugerindo que foram incendiadas e não bombardeadas. Em meio à destruição, havia casas de sérvios intocadas e com tulipas nos jardins.
Quase uma dúzia de vezes deu para avistar fumaça negra saindo de vilas na rodovia entre Bujanovac e Zrze, indicando novos incêndios, apesar de não haver combates. Das várias casas danaficadas ou vandalizadas, muitas eram lojas com placas escritas em albanês.
Em Prizren, a cidade a sudoeste de Zrze, vários albaneses étnicos apresentados por autoridades como sobreviventes do ataque ao comboio balançaram os ombros e se recusaram a responder o que significavam as casas incendiadas.
Nas proximidades de Zrze, no local de um dos ataques, Genc Huis, um refugiado albanês étnico, evitou nervosamente a mesma pergunta, dizendo apenas: "Naturalmente que casas estão incendiadas. Isto é uma guerra".
Sérvios - seja soldados, policiais ou civis - pareciam relaxados em todas as paradas da viagem. Em Bujanovac, dezenas olhavam para o céu, aparentemente procurando jatos da Otan depois de ouvirem barulhos deles. Não havia nenhum sinal de medo
apenas de curiosidade. Vários soldados fizeram o sinal da vitória ou a saudação com três dedos da superioridade sérvia quando o ônibus passou por eles.
Foi fácil ver dezenas de veículos militares que supostamente deveriam estar escondidos da vista aérea. Entre eles estavam caminhões estacionados em garagens, dentro de casas albanesas parcialmente destruídas ou camuflados em parques e campos.
Vários veículos blindados estavam enterrados entre pequenos arbustos cobrindo as colinas que levam aos picos cobertos de neve de Brezovica, a mais alta montanha iugoslava, ao sul de Prizren. E num campo a noroeste de Urosevac, foram montados cerca de meia dúzia de falsos canhões, claramente para enganar aviões da Otan.
Numa parada na vila de Strpsa, não distante de casas queimadas
uma delas ainda fumegando, um sérvio tomando raki com cerveja num café sorriu matreiramente quando perguntado se sabia de algum ataque contra albaneses. "Vocês são os bárbaros, não nós, com seus bombardeios", disse ele a repórteres. "E não sabemos nada de casas incendiadas".

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