Policiais do Rio assistem palestra sobre direitos humanos de homossexuais
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domingo, 28 de fevereiro de 1999
Por Adriana Ferreira 
Rio, 01 (AE) - Em uma iniciativa inédita, a Secretaria de Segurança Pública do Rio realizou, hoje à tarde, uma palestra para 50 policiais civis, na sede da Academia de Polícia, no centro, sobre um tema considerado tabu: direitos humanos de homossexuais. A aula, que faz parte do curso de formação para os profissionais que vão trabalhar na delegacia-modelo, com inauguração marcada para o dia 29 de março, trouxe a tona dados nada animadores. Segundo levantamento da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis, o Rio é responsável por 35% dos assassinatos de homossexuais ocorridos no País.
Dos 2 mil crimes cometidos no Brasil nos últimos 15 anos, cuja causa é a discriminação sexual, o Rio responde por 720. "Conseguimos fazer esse levantamento através de notícias de jornais, já que não há dados oficiais sobre isso", observa o secretário-geral da ABGLT, Claudio Nascimento.
Na realidade, o Rio é apenas um reflexo do País. Relatório divulgado pela Anistia Internacional coloca o Brasil entre os cinco países (mais Peru, Turquia, Irã e Paquistão) que mais violam os direitos humanos de gays, lésbicas e travestis.
Ativista do movimento gay há dez anos, Nascimento fez uma palestra de cerca de uma hora e meia de duração. Procurou abordar vários pontos sobre a questão da homossexualidade. "O meu objetivo foi dar uma nova visão dos direitos humanos, tendo como parâmetro a lei e mostrando o respeito a todos", explicou ele que teve na platéia a presença atenta do sub-secretário de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares.
Citando alguns estudos, o ativista procurou mostrar que a homossexualidade não é doença, assim como não é algo determinante para que um profissional seja aceito ou não em sua carreira. "Não podemos ter a nossa sexualidade confinada e escondida no quarto", defendeu Nascimento. "Temos que vivenciá-la em todos os espaços da sociedade".
Após uma exposição detalhada, Nascimento partiu para algo mais prático: mostrou vários recortes de jornais com casos sobre violência contra homossexuais. Também contou situações em que gays, lésbicas e travestis foram discriminados por policiais militares e civis. "Não há uma boa relação com a PM e a polícia civil", lamentou. "Sem dúvida, é uma relação tortuosa, difícil e complexa", acrescentou, dizendo, entretanto, que não queria generalizar. O ativista ainda fez uma ressalva com relação à Guarda Municipal: "São uns jagunços, os mais truculentos", observou. Palestra - No debate, que inicialmente começou tímido, alguns policiais demonstraram um certo descontentamento com a acusação de que a polícia trataria os homossexuais com discriminação. O detetive José Geraldo de Carvalho fez questão de lembrar os problemas que ocorrem em uma delegacia de polícia. "A dificuldade é para todos", observou. Carvalho lembrou que, muitas vezes, a agressão parte de quem vai até à delegacia. "Não é para o travesti chegar na delegacia e soltar plumas e paêtes", comentou o detetive, que saiu satisfeito com a palestra.
Há 16 anos trabalhando na polícia, a escrivã Rosângela Pessoa de Vasconcelos acha que este tipo de encontro é muito válido. "É bom para que haja uma conscientização das duas partes", ressaltou. Satisfeito com o resultado da palestra, o sub-secretário de Segurança Pública diz que este tipo de reforma que a secretaria quer implantar na polícia supõe uma mudança de "cabeça e de cultura" de seus profissionais. "Este tipo de iniciativa que estamos fazendo é original porque ainda estamos imersos em tabus", diz. "Estamos mergulhando em outra dimensão", resumiu.


