Policiais civis e militares do Rio, em greve, usaram na manifestação de ontem até mesmo palavras de ordem características do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra: ‘‘ocupar, resistir, produzir’’, gritavam eles durante passeata, ao mesmo tempo em que aplaudiam a solidariedade dos sem-terra ao movimento. De acordo com José Elias, um dos líderes do MST, o apoio aos policiais não está condicionado à retribuição de solidariedade com o movimento. ‘‘Estamos aqui, porque achamos que os explorados devem se unir’’. Cláudio Cruz, do Núcleo dos Policiais, conclamou a classe a apoiar o MST.
O governador Marcello Alencar disse que ‘‘poucos policiais da ativa compareceram à passeata’’. Ele acusou a CUT e o MST de ‘‘explorarem politicamente o movimento’’. Outro líder da classe policial, Carlos Eustáquio Almeida, foi mais cauteloso. ‘‘Agradecemos o apoio, mas temos que resolver primeiro os nossos problemas’’. Um escrivão, Marco Aurélio, da 72ª DP (São Gonçalo) levou um revólver de brinquedo para passeata. ‘‘O doutor Luz disse que aqui só haveria revólveres enferrujados e gente preguiçosa’’, afirmou. Na verdade, alguns policiais estavam armados, mas sem ostentar as armas.
Vestidos com saco de plástico preto, com a palavra ‘‘lixo’’ pintada, policiais aposentados formavam um bloco à parte, aos gritos ‘‘Ah, eu tô com fome! Ah, eu tô é duro’’. Um terceiro sargento do Corpo de Bombeiros apareceu na passeata com uma touca ninja. ‘‘Só vim aqui porque estou de folga’’. Ele disse ganhar R$ 590 e é obrigado a trabalhar como segurança particular para receber mais R$ 800 mensais.
O presidente regional da CUT, Alcebíades Teixeira, disse que é normal que a central apoie os policiais. ‘‘Eles também são trabalhadores, explorados, pagam contas e têm compromissos’’, afirmou. Também não faltaram policiais com colete e a cara pintada. ‘‘Ganho R$ 460, uma mixaria, e espero que a população se sensibilize conosco’’, disse o ‘‘cara pintada’’ Carlos Menezes, de 36 anos, detetive do Setor de Recursos Especiais, unidade de elite da Polícia Civil. Policiais da Baixada Fluminense fretaram ônibus para participar da passeata.

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