Policiais de Campinas têm sigilo fiscal quebrado
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quinta-feira, 04 de novembro de 1999
Por Fausto Macedo e Clayton Levy 
São Paulo, 05 (AE) - Pelo menos seis policiais civis supostamente envolvidos com esquema de roubo de cargas em Campinas estão com sigilo fiscal quebrado por determinação judicial. A medida foi tomada por requisição do Ministério Público Estadual que há três anos investiga as ramificações do crime organizado na região. Campinas é apontada pela CPI do Narcotráfico como o centro logístico e financeiro de uma superquadrilha comandada por deputados estaduais do Maranhão e do Acre, com a participação de deputados federais, empresários, comerciantes e policiais corruptos.
A CPI acredita que o assalto a carretas e a receptação de mercadorias roubadas são atividades atreladas ao contrabando de drogas e armamentos pesados. O deputado-relator, Moroni Torgan (PFL-CE), sustenta que a organização mantém representação em 14 Estados. A comissão vai a Campinas para ouvir suspeitos e testemunhas. O empresário Willian Walder Sozza - acusado pela CPI de ser o cérebro do bando - está foragido. Ele possui uma empresa que vende produtos para cães na cidade e foi presidente do diretório regional do PRTB. No 4.º Distrito Policial há um inquérito sobre receptação citando o nome de Sozza.
O esquema de roubo de cargas foi denunciado pelo assaltante Gilmar Leite Siqueira. Ele apontou investigadores da Polícia Civil. A Corregedoria da Polícia Judiciária de Campinas abriu sindicância. A Delegacia Seccional instaurou inquérito criminal. Depois que Siqueira delatou a quadrilha de policiais, sua mulher - Vilma Lucia Vageti -, e o filho - Fernando Vageti Siqueira -, foram assassinados. A Justiça está convencida de que a execução dos familiares de Siqueira foi uma vingança. O assassino, Heraldo Theodoro, foi preso e condenado, em maio, a 35 anos de reclusão. Ele não apontou os mandantes do duplo homicídio.
Um grupo de 13 promotores criminais de Campinas está preparando dossiê sobre o crime organizado para fornecer dados à CPI. Entre os casos relacionados está o furto de 340 quilos de cocaína ocorrido em 1998. Traficantes invadiram o prédio do Instituto Médico Legal e recuperaram a droga, que havia sido apreendida numa blitz policial. Segundo os promotores, também está sendo apurada denúncia de lavagem de dinheiro envolvendo "alguns empresários de Campinas."
Há pelo menos dois anos o presidente da Associação Comercial e Industrial de Campinas (Acic), Guilherme Campos Júnior, vem denunciando a existência de um "mercado paralelo" para venda de mercadorias roubadas na região. Para ele, isso confirma os indícios, levantados pela CPI do Narcotráfico, de que o município funcione como reduto do crime organizado no País.
"Esse mercado paralelo funciona na cara de todo mundo há muito tempo", disse o empresário. Ele acredita que os produtos colocados à venda sejam provenientes de cargas roubadas na região. O próprio Campos Júnior diz que foi procurado para comprar produtos de origem suspeita. Segundo o empresário, a oferta foi feita por um homem, cujo nome ele não lembra. "Ele surgiu do nada e, como não conseguiu o que pretendia, nunca mais voltou", conta. "Sempre desconfiei e nunca aceitei as propostas", completa o empresário, que é dono de uma rede de lojas no setor de cama, mesa e banho.
Segundo ele, os responsáveis pelo mercado paralelo oferecem produtos de todo tipo, mas a preços bem mais baixos. "No meu caso, chegaram a oferecer produtos com preço 30% menor que o valor de mercado", conta. Campos Júnior diz que outros varejistas da cidade também teriam recebido ofertas para comprar mercadorias suspeitas, mas não quis revelar quem seriam estas pessoas.
O presidente da Acic diz que o mercado paralelo funciona livremente. "Eles aceitam pedidos por encomenda e, se o freguês quiser, fornecem notas fiscais falsas", disse. Para Campos Filho, a principal forma de distribuição das mercadorias roubadas é através do comércio informal. No primeiro semestre desse ano, o número de caminhões roubados nas estradas paulistas aumentou em cerca de 60% diante do mesmo período do ano passado, passando de 564 para 938 ocorrências registradas. Na região de Campinas, 311 caminhões tiveram cargas roubadas esse ano.
"Os indícios sobre a existência do crime organizado são muito fortes", diz o presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Carga de Campinas e Região, Walter Boscatto. Ele acredita que o grau de sofisticação do esquema inclua a infiltração dos criminosos nas próprias transportadoras. Segundo ele, o roubo de cargas responde por uma queda de 10% no faturamento anual das empresas.


