Policiais civis devem esclarecer crimes, não vigiar presos, diz associação
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quinta-feira, 29 de julho de 1999
Por Renato Lombardi e Marcelo Godoy 
São Paulo, 30 (AE) - O presidente da Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo, Paulo Fortunato, quer que os policiais civis - investigadores, delegados e agentes policiais - deixem de cuidar dos presos e passem a esclarecer crimes e a prender cada vez mais criminosos. Fortunato explicou que centenas de policiais se tornaram carcereiros. Ele já levou ao conhecimento do governo a preocupação da associação e de toda a classe policial civil. "Um policial não pode ficar confinado a uma delegacia vigiando detentos."
Ele quer que o governo observe cada vez mais os salários. "O policial civil ganha mal e é obrigado nas horas de folga a trabalhar em segurança particular para reforçar o orçamento." Fortunato explicou que a associação vem dando um voto de confiança ao secretário da Segurança, Marco Vinício Petrelluzzi. Mesmo com o apoio, o presidente da associação dos delegados afirmou que está na hora de começar a cobrar medidas do governo, pois os índices de crime têm aumentado e a Polícia Civil está impedida de fazer seu trabalho, por causa de atribuições "que não são dela".
Fortunato comentou a decisão da Justiça, solicitada pela associação, que transferiu a escolta dos presos para a Polícia Militar. "Até agora a decisão da Justiça não foi cumprida e continuamos a levar os presos para as audiências, deixando de investigar todo o tipo de crime."
Preparo - O aumento dos roubos, furtos e roubos de veículos e os assassinatos praticados pelos ladrões tem impressionado James Cavallaro que dirige no Brasil a Americas Watch, entidade não-governamental que estuda a violência. Para ele, o crescimento do crime deve-se muitas vezes à falta de recursos da polícia. "Uma polícia bem preparada faz com que a criminalidade seja reduzida cada vez mais."
Cavallaro deu como exemplo o policial de Nova York, que trabalha com meios materiais e é muito eficiente. "Claro que a cidade de Nova York tem dinheiro para investir na segurança, mas quando o policial é bem preparado, mesmo numa cidade com poucos recursos, terá todos os meios para enfrentar o crime."
Para o representante da Americas Watch, a corrupção policial beneficia o aumento da criminalidade. "O corrupto faz o jogo do bandido." Na quarta-feira, um escrivão da Polícia Civil de São Paulo foi preso no Rio acusado de tentar extorquir R$ 18 mil de um empresário, dono de um Mercedes roubado. O policial alegou que trabalhava numa recuperadora de veículos do Paraná e não entregaria o carro se não recebesse o dinheiro. O empresário procurou a polícia do Rio e o escrivão acabou preso em flagrante na Tijuca, zona norte.
Alarmantes - Para o advogado Pedro Dallari, da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), seção de São Paulo, os números da criminalidade são alarmantes. Nos seis primeiros meses deste ano, os ladrões assaltaram e mataram 343 pessoas no Estado. Na capital, foram 175. "É preciso reverter esta situação e o governo deve explicar porque os crimes têm aumentado." Dallari afirmou que a comissão acompanhará a evolução do crime e o trabalho da polícia.
A Ouvidoria da Polícia de São Paulo apresentou 44 propostas ao governo para diminuir a criminalidade. Segundo o ouvidor, Benedito Mariano, a mais urgente é a criação de órgãos corregedores autônomos e com carreira. "Para combater o crime é preciso rigor contra os delitos cometidos pelos agentes do Estado."Além disso, ele destacou a unificação do combate ao tráfico de drogas, subordinando ao Departamento Estadual de Investigações sobre Entorpecentes (Denarc)às delegacias de investigações sobre narcóticos existentes no interior, e transformar de 70% a 80% dos carros oficiais da Polícia Civil em veículos descaracterizados, sem as cores preta e branca.
Mariano também defende a mudança do regimento disclipinar da PM, para punir com mais rigor as faltas cometidas no policiamento do que as no interior dos quartéis, punir os policiais vinculados a empresas de segurança privada, separar o Corpo de Bombeiros da PM e diminuir a diferença entre o maior e o menor salário entre os policiais. Hoje, o mais alto é dez vezes maior do que o mais baixo. "Propomos que ele seja quatro vezes maior."


