Polícia tenta proibir manifestação oposicionista
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 05 de julho de 1999
Por Aleksandar Vasovic 
UZICE, Iugoslávia, 06 (AE-AP) - Milhares de sérvios revoltados manifestaram-se nesta terça-feira (06) em uma cidade do centro da Sérvia exigindo a renúncia do presidente iugoslavo Slobodan Milosevic, enquanto em outra cidade a polícia entrou em confronto com uma multidão de manifestantes contra o governo.
"Saia, Slobo, saia!", cantava a multidão, que ovacionava líderes da oposição democrática que organizou o protesto na cidade de Uzice, cerca de 200 quilômetros ao sudoeste de Belgrado.
Uma multidão de cerca de 6.000 pessoas cumprimentava Zoran Djindjic, líder do Partido Democrático, e outros ativistas da Aliança para Mudança, principal agremiação que reúne os partidos pró-democracia e anti-Milosevic da Sérvia.
"Nós devemos ir até o fim para que a Sérvia possa ter um novo começo. Todos os dias... nós devemos estar em todas as ruas e ficar até que ele (Milosevic) saia", disse Djindjic à multidão. "Não estamos aqui para comemorarmos vitórias, mas para ver como sobreviver à derrota", declarou.
Os organizadores disseram ter ignorado um aviso da polícia para acabar com o protesto no centro de Uzice, onde não era visível nenhuma presença substancial da polícia. Este foi o segundo protesto convocado pela aliança em duas semanas pedindo a deposição do presidente autocrático.
Enquanto isso, em uma atmosfera ainda mais explosiva que eventualmente acaba em violência, alguns milhares de pessoas foram às ruas da cidade de Leskovac, no sul da Sérvia. Os manifestantes exigiam pelo segundo dia consecutivo a renúncia de um governador local leal a Milosevic. Eles entraram em confronto com a polícia quando se aproximaram de uma delegacia para exigir a libertação de um ativista preso por organizar um protesto na segunda-feira.
Ivan Novkovic, funcionário de uma estação de televisão local, tornou-se uma celebridade instantânea ao interromper um programa da estação na semana passada para pedir às pessoas que se manifestassem contra a supostamente corrupta autoridade local. Cerca de 20.000 pessoas uniram-se ao protesto de ontem, mostrando um descontentamento massivo com o governo. Hoje, Novkovic foi sentenciado a 30 dias de prisão.
As manifestações de Leskovac não foram organizadas por nenhum partido de oposição, como dois protestos da semana passada. Mas ela mostrou um crescente descontentamento com Milosevic, cujas políticas de linha-dura levaram aos bombardeios da Otan contra a Iugoslávia e à virtual perda da província de Kosovo.
"Os crimes foram cometidos em nosso nome nos últimos 10 anos. Este país não é culpado pelo que foi feito. Este governo criminoso é o culpado", disse Milan Protic, um proeminente historiador e ativista oposicionista, em Uzice.
Um padre local da igreja ortodoxa sérvia expressou apoio ao protesto. Rompendo com as tradições, a igreja recentemente exigiu abertamente a renúncia de Milosevic.
Outro ativista da oposição, Velimir Ilic, conclamou a polícia e o exército para que se unam às manifestações populares. Ilic tornou-se dissidente durante os bombardeios da Otan, ao culpar o governo iugolavo pela destruição.
Outros líderes oposicionistas repetiram suas exigências de renúncia de Milosevic, a criação de um governo de transição e eleições livres e justas.
"A Sérvia se levantou, livre do medo. Leskovac é um exemplo. Novkovic é melhor que Milosevic porque ele é um homem bravo", disse Goran Svilanovic, um líder da aliança.
Mas as autoridades leais a Milosevic têm um antigo registro bem sucedido de manipular a oposição nos últimos anos. Nesta terça-feira, panfletos acusando a oposição de ser aliada da Otan foram jogados, do alto de um prédio, sobre a multidão.
Os panfletos pró-Milosevic diziam: "Nós sabemos que você está vindo aqui com uma mensagem ordenada por aqueles que nos bombardearam... a maioria dos moradores de Uzice não está com você e nunca estará."
Em Belgrado, em um outro golpe contra Milosevic, o principal líder da oposição sérvia disse que sob nenhuma circunstância entraria em uma coalizão governamental liderada pelo premier pró-Milosevic, Momir Bulatovic.
Vuk Draskovic disse a jornalistas que Bulatovic deve renunciar e que um novo governo de transição deveria ser formado. O novo primeiro-ministro iugoslavo deveria vir de um partido pró-ocidental liderado pelo presidente montenegrino Milo Djukanovic, disse ele.
Milosevic tentava convencer Draskovic, líder do Partido do Movimento Sérvio de Renovação, a aderir ao governo para criar uma ampla aliança e excluir outros líderes oposicionistas.
Ainda nesta terça-feira, a câmara dos vereadores de Novi Sad, segunda maior cidade da Iugoslávia que esteve sob forte bombardeio durante os 78 dias de campanha da Otan, aderiu ao refrão que exige a renúncia de Milosevic, informou a agência de notícias independente Beta.


