Curitiba

Arquivo FolhaContradição70 policiais participaram de curso para recuperar a imagem da instituição, mas crimes cometidos por membros da corporação continuaram a acontecerNa quinta-feira da semana passada, algumas horas depois de 70 policiais civis terem concluído um curso de reciclagem profissional, contratado pela cúpula da polícia para recuperar a imagem da instituição, um investigador da polícia matou um delegado em mais uma ação irregular realizada em Curitiba. O crime contribuiu para arranhar ainda mais a imagem da corporação, abalada pelo assassinato do universitário Rafael Zanella e por uma série de outros abusos de autoridade. ‘‘Quando estávamos conseguindo superar nossa fase negra, aconteceu este crime lastimável, sem explicação’’, admite o delegado-geral da Polícia Civil do Paraná, Artur Braga.
A ‘‘fase negra’’ da Polícia Civil a que o delegado-geral se refere se intensificou com a morte de Zanella, numa blitz irregular no final do mês de maio. Numa suposta operação anti-tráfico, agentes da polícia civil sem qualquer identificação abordaram o carro dirigido pelo estudante e ocupado por mais três amigos. Um informante da polícia disparou um tiro na cabeça de Zanella. Em seguida, os policiais teriam ‘plantado’ meio quilo de maconha no porta-malas do carro e uma quantidade menor da droga na cueca do rapaz. A versão de que se tratava de um grupo de traficantes que resistiu à prisão, e de que Zanella atirou contra os policiais, acabou sendo ‘desmontada’ dias depois.
Um dia antes da morte do delegado, um garoto de 14 anos que dirigia uma moto foi morto por policias militares em Colombo. Os crimes da semana passada fizeram reaparecer a discussão sobre quem são os policiais responsáveis pela segurança dos cidadãos.
O delegado-geral evita atribuir os erros da polícia à falta de preparo dos profissionais. Ele acredita que os deslizes acontecem pelo estresse a que são submetidos os policiais, resultado do excesso de trabalho. Muitas vezes, segundo Braga, os policiais chegam a realizar entre 100 e 200 abordagens em apenas uma operação. ‘‘É até compreensível que ocorram problemas em uma ou duas dessas ações’’, afirma.
A intenção de melhorar a formação dos policiais civis, discutida em caráter emergencial pela cúpula da polícia depois dos últimos crimes ocorridos no Estado, poderá demorar mais do que o esperado. Numa perspectiva otimista, e baseando-se na experiência do curso promovido na semana passada pela Escola da Polícia Civil do Paraná, serão necessários cerca de dois anos para reciclar todos os 4 mil policiais civis do Estado.
Os autores do projeto, entre eles o delegado-geral e o Secretário de Estado da Segurança Pública, Cândido Martins de Oliveira, admitem a lentidão do processo. ‘‘É apenas o primeiro passo de uma mudança que deverá acontecer somente a médio prazo’’, afirma Braga. O tema escolhido para o primeiro curso, ‘‘As Relações Sociais no Trato com a Instituição e com o Público’’, segue exatamente esta filosofia. ‘‘Precisamos começar pela transformação do comportamento dos policiais para depois passar para outros estágios’’, acredita o secretário.
Temendo novos acontecimentos que desgastem ainda mais a confiança depositada na instituição, o delegado-geral anunciou a realização de novos programas de formação. Nesta terça-feira, terá início o curso ‘‘Técnicas de Abordagem’’, no qual os policiais ‘aprenderão’ padrões de comportamento que necessariamente já deveriam ser adotados por eles.
Durante as aulas, ministradas por um delegado do Grupo Tigre, os policiais receberão instruções sobre como proceder durante uma abordagem, incluindo ‘detalhes’ básicos como o uso de coletes de identificação e utilização de carros com giroflex. ‘‘Vamos bater nesta tecla novamente para que não haja dúvidas’’, diz Braga. Tanto no caso da morte do estudante Rafael Zanella quanto no assassinato do delegado Jaime Gonçalves de Castro, nenhum destes requisitos foi obedecido.
O comando da Polícia Civil tenta evitar a correlação entre os crimes e a realização dos cursos, afirmando que as reciclagens profissionais já vinham sendo planejadas há mais tempo. No entanto, admite-se, a polícia foi surpreendida novamente pelos fatos e resolveu apressar o processo de atualização.
‘‘Já estão acontecendo reuniões permanentes nas delegacias, para que seja possível um controle forte das operações’’, afirma Braga. O secretário de Segurança Pública acredita que os avanços conseguidos dentro da instituição serão naturalmente refletidos no relacionamento com a comunidade. ‘‘Mas é preciso ter em mente que não se muda nada de uma hora para outra’’, lembra.

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