Polícia prende 13 por suspeita de venda de terrenos em cemitério de Ibiporã
Famílias teriam pago entre R$ 2 mil e R$ 22 mil pelas áreas públicas; servidor da prefeitura está entre os investigados
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de outubro de 2019
Famílias teriam pago entre R$ 2 mil e R$ 22 mil pelas áreas públicas; servidor da prefeitura está entre os investigados
Viviani Costa - Grupo Folha 
Ibiporã - A venda de jazigos e de terrenos no Cemitério Municipal São Lucas, em Ibiporã (Região Metropolitana de Londrina), alvo de investigação pela Polícia Civil, resultou na prisão de 13 pessoas durante operação realizada nesta quinta-feira (3). Policiais encontraram ossadas no departamento administrativo do cemitério, inclusive próximas ao equipamento de cartão-ponto dos servidores.

O grupo investigado retirava e se desfazia de ossadas de jazigos antigos para comercializar os espaços aos compradores. Terrenos nunca utilizados também foram oferecidos às famílias. Entre os presos está o coordenador da Divisão de Cemitérios de Ibiporã, Paulo Ribeiro.
O inquérito teve início após denúncia anônima recebida na Delegacia de Cambé. Ao todo, foram sete meses de investigação. Conforme o delegado da Divisão de Combate à Corrupção (Núcleo Londrina), Thiago Vicentini, ao menos 30 famílias foram vítimas dos criminosos desde 2018. Cada uma teria pago valores que variam entre R$ 2 e R$ 22 mil.
“As famílias apresentaram recibos em nome do Paulo ou de outros indivíduos que participam da organização e chamou a atenção porque, como o cemitério é público, não poderia existir a venda", destacou. Ainda segundo o delegado, algumas das vítimas se desfizeram de patrimônios e adquiriram empréstimos para quitar os valores exigidos e conseguir enterrar os familiares.
Entre os presos também estão coveiros investigados por realizar exumações indevidas e angariar novos clientes, representantes de duas funerárias que teriam participação nas vendas, um empresário da cidade proprietário de uma academia e que teria recebido parte dos valores e um homem que se passava por advogado para obter recursos do seguro DPVAT que deveria ser depositado a familiares de vítimas de acidentes de trânsito.
O vereador Rafael da Farmácia (PSB) foi ouvido como testemunha no caso. “Constatamos que o vereador tinha conhecimento dessas ilicitudes. Posteriormente, durante a investigação ele confirmou que indicou civis para que procurassem o Paulo para comprar terrenos. Não temos prova de qualquer recebimento de valores ou se foi só uma mera cumplicidade. Isso será investigado”, afirmou o delegado. A maior parte dos valores pagos, conforme Vicentini, era repassada ao coordenador da Divisão de Cemitérios.
Foram cumpridos 22 mandados de busca e apreensão, além de mandados relacionados a sequestro de bens que teriam sido adquiridos com os valores pagos pelas vítimas. Os 15 veículos apreendidos foram trazidos a Londrina e estacionados em frente à delegacia durante a manhã desta quinta. Com o volume de apreensões, foi necessário interromper o tráfego no local até que os carros fossem levados ao barracão da Polícia Civil.
“Tivemos a comprovação ao longo da investigação de dezenas de vendas realizadas. Acreditamos que existam outras pessoas envolvidas. O curso da investigação será determinante para apontar a responsabilidade de outros envolvidos, além daqueles que foram presos, como também identificar outras vendas que nós temos certeza que ocorreram e que ainda não foram documentadas nos autos. Temos informações preliminares de que as vendas chegaram a centenas de negociações estabelecidas no cemitério”, ressaltou o chefe da Divisão de Combate à Corrupção no Paraná, delegado Alan Flore.
Os presos são investigados por organização criminosa, lavagem de dinheiro, concussão e vilipêndio a cadáver. Os nomes de todos os detidos não foram revelados pela Polícia Civil.
Ao deixar a delegacia, o vereador Rafael da Farmácia negou envolvimento com o esquema investigado. “No final da semana, recebi uma denúncia no meu gabinete dizendo que tinha ossadas na escrivaninha do cemitério. Subi até o gabinete do prefeito, falei para o prefeito e ele disse que iria tomar providências. Saí do gabinete e fui para casa. Com certeza, correu a notícia no município e alguém deve ter visto que fui ao cemitério e a polícia foi até minha casa”, explicou. “A gente sabe que é proibido vender túmulo”, acrescentou após negar ter indicado interessados na compra. Os advogados do coordenador da Divisão de Cemitérios de Ibiporã, Paulo Ribeiro, deixaram a delegacia sem gravar entrevista.
No fim da tarde, por volta das 18h, os presos foram transferidos para a delegacia de Polícia Civil de Ibiporã.


