Assim como ocorreu no Natal, a festa de Ano-Novo, em Belém, teve um significado político. No telão, na Praça da Manjedoura, foi exibido um filme com a história moderna de Maria e José, os pais de Jesus Cristo, em que eles tentam sair da cidade, em direção a Jerusalém, passando pela barreira do exército israelense. Diariamente, os palestinos que querem ir para Jerusalém, precisam apresentar documentos e muitas vezes, a permissão para atravessar a fronteira não é obtida. Além disso, algumas horas antes da meia noite, houve uma comemoração pelos 35 anos de criação da Organização Pela Libertação da Palestina (OLP). O objetivo, explicam os palestinos, é reforçar o objetivo de criar um estado palestino ainda este ano.Por Gabriela Athias Enviada Especial JERUSALÉM - Alguns turistas estrangeiros e centenas de policiais aguardaram a chegada do ano novo, em Jerusalém, no Monte das Oliveiras, local que na bíblia está associado à chegada do Messias. Até as primeiras horas do ano 2.000, a polícia não havia registrado incidentes violentos, como suicídios e atentados a locais santos, como vinha sendo alardeado. A porta-voz da polícia, Linda Menuhim, informou que poucas horas antes da meia-noite, a polícia ainda levou um norte-americano direto do Monte para um hospital psiquiátrico. "Ele estava falando coisas insanas e contando que Deus havia falado com ele", disse Linda. Ainda assim, minutos antes da meia noite, o norte-americano Michael David, de 30 anos, começou a ler a bíblia em voz alta e a convocar a humanidade para uma espécie de levante contra o demônio. O fato é que a chegada do ano novo, em Israel, transcorreu sem incidentes sérios. Milhares de policiais militares estavam de prontidão nos locais santos, especialmente na Cidade Velha de Jerusalém, como a Via Dolorosa e a Igreja do Santo Sepulcro. À meia-noite, em Jerusalém, alguns fogos marcaram a chegada do ano 2.000, apenas na parte oriental da cidade, onde moram os árabes e cristãos. A parte judaica permaneceu em silêncio, já que para os judeus hoje é o shabat, dia santo. A maior emissora de televisão local fez uma reportagem, mostrando uma luz verde, iluminando o Portão de Ouro (Golden Gate, que em hebraico é o Portão da Misercórdia), na Cidade Velha. "Quando Messias chegar, vai entrar na cidade através desse ponto e atravessará os muros da cidade", explicava o repórter, ao referir-se à crença sobre o retorno de Jesus Cristo. No entanto, como era esperado, Jesus Cristo não retornou e o mundo não acabou, como previam os membros das seitas apocalípticas. As expectativas a respeito do fim do mundo, em Jerusalém, criaram um clima de tensão e possibilitaram situações inusitadas. O francês Tito (nome pelo qual ele se apresenta) foi aguardar o novo ano no Monte das Oliveiras vestido com uma túnica branca com uma imensa cruz vermelha no peito. "Vim com essa roupa porque sabia que assim teria a oportunidade de conhecer mais gente", disse ele aos jornalistas. As agências de turismo, percebendo que a chegada do milênio não seria comemorada em Jerusalém (com shows e fogos de artifício) desviaram ônibus de turismo para Belém. Na terra onde Jesus nasceu (a cerca de 8 quilômetros de Jerusalém) estava sendo preparada mais uma festa, dentro do projeto 2.000, que pretende atrair milhares de turistas durante este ano. Mesmo assim, na avaliação da polícia local, das 20 mil pessoas que comepareceram à Praça da Manjedoura, em frente à Igreja da Natividade, não havia mais de 300 turistas estrangeiros. A polícia palestina chegou a deter seis estrangeiros (dois africanos e quatro norte-americanos), que se pareciam fisicamente com cristãos ligados a seitas apocalípticas, que estavam sendo procurados pela polícia israelense. Em Belém, à meia noite, foram soltas 2 mil pombas da paz, na Praça da Manjedoura. Os pássaros foram libertados ao som da banda Pink Floyd, após um espetáculo pirotécnico.