A Polícia Militar deixou ontem apenas 10 equipes do Comando de Operações Especiais (COE) para manter a segurança das seis propriedades desocupadas na sexta-feira em Querência do Norte (113 km a oeste de Paranavaí). No total, segundo o tenente Adalto Girardi, que comandava as equipes, ficaram 213 policiais na cidade. Ele explicou que serão realizadas ‘‘operações relâmpago’’. ‘‘Vamos manter também a operação de desarmamento, que ainda não acabou’’.
Novas desocupações, segundo o tenente, apenas com ordem da Secretaria de Segurança. Segundo um morador de Querência do Norte, que pediu para não ser identificado, o movimento de caminhões na cidade foi muito grande durante toda a noite. Ele contou ainda à Folha que a Polícia Militar deixou muitos jipes na cidade, o que indica a intenção de manter um patrulhamento rural mais efetivo.
Um sem-terra, que não se identificou, disse à Folha que 14 ‘‘companheiros’’ ainda estavam presos em Paranavaí. A polícia não confirmou o número de sem-terra que continuam detidos e nem onde estão. O advogado Marino Gonçalves, da Rede de Advogados Populares, informou que também estava com dificuldades para saber com exatidão a quantidade de presos. A Folha apurou que ontem foram libertadas três pessoas: um menor e dois funcionários de fazendas.
Segundo Marino, além da Anistia Internacional, outros organismos de defesa dos direitos humanos serão acionados. Ele tem informações de que sem a presença da imprensa a polícia usou a violência contra os sem-terra, mesmo não encontrando resistência. ‘‘Os policiais espancaram, destruíram bens pessoais dos sem-terra’’, afirma.
Líderes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, que preferem não se identificar temendo represálias, informam que cerca de 200 despejados continuam na região, alojadas na cooperativa do MST, ou abrigados na casa de parentes e amigos.
‘‘Quando cheguei à cidade e vi o aparato policial,temi pela existência de uma carnificina. Mas, pela graça de Deus, não houve mortos nem feridos’’, disse o deputado Padre Roque (PT/PR), membro da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, que foi a Querência acompanhar a ação.
De acordo com Padre Roque, o confronto não ocorreu porque boa parte dos sem-terra deixaram as áreas ocupadas antes de a força policial chegar. Os que ficaram, principalmente mulheres e crianças, atenderam a todas as ordens e deixaram o acampamento sem resistência.
‘‘Apesar de terem sido obrigados a ficar deitados no chão, até as 6 da manhã, além da experiência traumatizante, desta vez a Polícia não agiu com a costumeira violência física’’, destacou Padre Roque.
O membro da Comissão de Direitos Humanos da Câmara vai apresentar relatório revelando a ausência da violência física, mas informando, também, o cerceamento do direito à informação (durante a operação os jornalistas foram proibidos até de entrar na cidade), os maus tratos aos sem-terra.

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