Cuiabá, 19 (AE) - A Polícia Federal (PF) poderá divulgar amanhã (20) o nome do assassino do juiz Leopoldino Marques do Amaral, morto com dois tiros no início do mês. Ontem (18), às 16h30, a polícia conseguiu localizar a escrivã do Fórum Cível de Mato Grosso Beatriz Arias, de 34 anos, suspeita de estar envolvida no crime. Ela estava escondida no vilarejo paraguaio de Ilha de Margarida e só se entregou depois de fechar um acordo com policiais da Superintendência da PF em Mato Grosso do Sul, que contou com a participação do irmão Juamildo Arias. Beatriz foi levada para Porto Murtinho (MS) e, em seguida, para Campo Grande. Toda a operação foi comandada pelo delegado José Pinto Luna, que preside o inquérito. Em Campo Grande, Luna fez uma acareação entre Beatriz e o ex-PM Maurício Marques Viveiro, também acusado de participar do assassinato. Viveiro, que responde a quatro inquéritos na PF por homicídio, estava preso em Ponta Porã (MS) desde o dia 9, por porte ilegal de uma pistola 380. Há informações de que o ex-PM teria lavado a caminhonete S-10 do juiz depois do crime.
A escrivã esteve com Amaral em Ponta Porã no dia em que ele desapareceu, em 3 de setembro. A PF acredita que ela teria servido de "isca" para atrair o juiz, que foi visto pela última vez deixando o Hotel de Beira-Rio, em Vázea Grande, na Região Metropolitana de Cuiabá.
Segundo a mãe de Beatriz, Joana Arias, a filha desapareceu depois de ter ido ao velório de Amaral, no dia 10. "Ela queixou-se de que foi vigiada por um homem muito estranho, pediu para que eu tomasse conta de suas filhas e fugiu no dia seguinte", afirmou Jussara. "Fico feliz, agora, em saber que ela está nas mãos da polícia e que está segura." De acordo com a Assessoria de Imprensa da PF, em Brasília, por medida de segurança, não será divulgado o local onde Beatriz está. A polícia ainda espera que o tio da escrivã, Marco Peralta Arias, também se entregue rapidamente. "Com a queda dela, ficou mais fácil", disse um agente da PF que faz parte das investigações. Peralta seria o homem do retrato falado feito pela polícia. Ele teria rondando o Hotel Beira-Rio num táxi na noite em que o juiz desapareceu. Amanhã, estão sendo esperadas a chegada em Cuiabá de representantes da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Judiciário no Senado e do diretor-geral da PF, Agílio Monteiro Silva.
Fica cada vez mais evidente que Amaral foi assassinado porque tinha em mãos documentos suficientes que comprovavam o envolvimento de membros do Tribunal de Justiça (TJ) de Mato Grosso com o narcotráfico. A reportagem localizou na Bolívia umas das últimas pessoas que esteve com ele antes da morte. Trata-se de Ana Maria da Silva, de 32 anos (o nome é fictício). No dia 2, ela esteve com o juiz no escritório do advogado Everaldo Filgueiras e num restaurante, em Cáceres (Região Oeste do Estado).
O material entregue ao juiz por Ana Maria põe em suspeita dois desembargadores do TJ na absolvição de Valdenor Alves Marchezan, em 1996. Condenado à revelia em 1ª instância por tráfico de drogas, ele foi absolvido pelo tribunal. Nos documentos, constavam cópias de cheques, duas fitas cassetes, planos de vôo, ofícios e papéis timbrados do TJ de Mato Grosso. Ana Maria teve acesso ao material porque era namorada do ex-policial Luiz Carlos de Siqueira, de 43 anos, assassinado em 28 de agosto. Siqueira tinha envolvimento com pistolagem e tráfico de drogas e era amigo do traficante Dom Lucho Salorram, que foi morto três dias depois, na fronteira do Brasil com a Bolívia. Ana Maria disse que entregou os documentos ao juiz porque sabia do envolvimento de Salorram com membros do TJ de Mato Grosso, entre os quais o desembargador Odiles de Freitas e o juiz José Geraldo Palmeiras. Os dois teriam usado o avião do traficante para visitar uma das fazendas dele na Bolívia. "Eu sabia que esse juiz ia morrer", disse. "Ele foi atraído por um homem de aproximadamente 40 anos para ir até o Paraguai com o carro do juiz." Ela contou ainda que se despediu do juiz no dia 2, por volta das 13 horas. Ana Maria, porém, afirmou que não conhecia Beatriz. "Se ele estava com alguma mulher, ela devia estar escondida em Cáceres."
Nervosa e com medo de ser morta, Ana Maria só aceitou falar por intermédio de um fazendeiro de Cáceres que tem fazenda em Puerto Suárez. Segundo Ana, a documentação provava que Marchezan teria pago US$ 80 mil para ser absolvido do processo. Ele foi acusado de envolvimento com o tráfico de drogas em 1996, depois que a PF descobriu o prefixo do avião que jogou 50 quilos de cocaína numa fazenda localizada em Chapada dos Guimarães, a 60 quilômetros de Cuiabá. Em seguida, o aparelho aterrisou na fazenda de Marchezan, em Mirassol DOeste (fronteira com a Bolívia). Julgado e condenado à revelia a 15 anos de prisão em Chapada dos Guimarães, ele foi absolvido com o pagamento de propina e ainda conseguiu de volta o avião e um carro usados no transporte da droga. Ana Maria disse que não sabia nomes de supostos agenciadores de sentenças. "Ele (o pistoleiro Luiz Carlos de Siqueira) dizia que essas pessoas se apresentavam como advogados que tinham bom trânsito no tribunal."
Nos documentos entregues a Amaral, Ana afirma que existia uma fita cassete na qual Marchezan teria recebido orientação do tabelião José Roberto Dario Braga para contratar um advogado que teria livre trânsito junto a desembargadores do TJ. Braga adquiriu um luxuoso iate, que supostamente era de propriedade do desembargador Odiles de Freitas. O iate foi afundado em 1994, no Rio Paraguai, em Cáceres, carregado de éter e acetona (substâncias usadas no refino da coca).
Ela disse que entregou todo o material que tinha em mãos porque Amaral também investigava este caso para comprovar o envolvimento de membro do TJ com o narcotráfico. Ana acredita que os documentos não foram enviados ao Supremo Tribunal Federal (STF) e nem à CPI do Judiciário. "Eu acho que essas provas foram destruídas por traficantes que atraíram o juiz para a emboscada", suspeita ela.

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