Mundo Novo, MS, 02 (AE) - A Polícia de Mato Grosso do Sul intensificou hoje as investigações sobre o assassinato da prefeita Dorcelina de Oliveira Folador (PT), morta com seis tiros na noite de sábado, colhendo depoimentos de diversas pessoas que mantinham relacionamento com ela, mas sem chegar até agora a uma pista conclusiva sobre a causa do crime.
O delegado Marcos dos Santos, que coordena os trabalhos, informou que várias hipóteses estão sendo investigadas, partindo de fatos relacionados com a administração municipal, e não quis fazer previsões sobre o tempo necessário para sua conclusão.
De acordo com o policial, depois de liberar dois suspeitos que chegaram a passar por acareação segunda-feira, a polícia tenta obter, através das pessoas ouvidas, indícios que possam levar aos motivos determinantes do homicídio. Uma das teses em investigação é a recusa da prefeita em concordar com o pagamento de uma operação financeira, feita por Antecipação de Receita Orçamentária (ARO), através do Banco de Santos. Dorcelina concluiu que a operação foi ilegal e obteve liminar do Tribunal de Justiça contra o pagamento.
Segundo o secretário de administração da prefeitura Indalécio Vanderlei Franco, recentemente uma equipe de representantes do Banco do Brasil esteve com Dorcelina, propondo a renegociação das dívidas, com base em medida provisória editada pelo governo federal. A prefeita não aceitou, alegando que antes de qualquer decisão pretendia aguardar o pronunciamento da Justiça. Depois disso, a prefeita teria recebido uma oferta de propina para concordar com o pagamento, o que também recusou.
Hoje seu marido e presidente da executiva local do PT, Cezar Folador, uma das pessoas que deveriam ser ouvidas pela polícia, chegou a declarar aos jornalistas que tinha conhecimento da oferta de dinheiro, mas pouco depois mudou a versão e informou que nada sabia a respeito. Ele disse que só prestaria informações às autoridades policiais.
Além desta pista, a polícia também investiga as denúncias feitas pela prefeita, contra seu antecessor Ademar Antônio da Silva, que segundo comissão de investigação por ela nomeada, constatou diversas irregularidades na prefeitura, inclusive o desaparecimento de 23 veículos, a realização de licitações irregulares e pagamento de vantagens financeiras irregulares para alguns funcionários. Todas as denúncias, segundo o secretário da administração foram encaminhadas à Câmara Municipal, à promotoria pública, ao Tribunal de Contas do Estado e ao Tribunal de Justiça.
Outra irregularidade denunciada por Dorcelina foi o recebimento, pela prefeitura, de recursos de convênio celebrado com a Itaipu Binacional para a implantação de uma micro-bacia no município, sem que as obras tivessem sido executadas.
Outra pista que está sendo apurada é o caso que envolveu o investigador da polícia civil de Mundo Novo e vereador Pildo Amaral (PSDB) que no dia 3 de outubro de 98, data das últimas eleições, alega ter sofrido tentativa de homicídio por parte de integrantes do PT, entre eles um candidato a deputado estadual, que o teriam atropelado quando passava com sua moto em uma das ruas da cidade. O vereador contou que só conseguiu escapar porque reagiu e fez vários disparos contra os agressores. O caso ainda tramita na justiça local.
A polícia também trabalha com a possibilidade de que o assassinato tenha ligação com as denúncias da ex-prefeita, através de órgãos da imprensa, sobre a atuação de quadrilhas ligadas ao tráfico de drogas e de crianças.
Hoje o trabalho policial ganhou o reforço da delegada Sidnéia Tobias, que atua na Delegacia Especial de Furtos e Roubos de Veículos de Campo Grande e que foi designada para presidir o inquérito sob a coordenação do delegado regional, por determinação do governador José Orcírio dos Santos, o Zeca do PT.
Segundo o delegado Marcos dos Santos, existem cinco equipes de investigadores atuando no caso, que realizam diligências até mesmo do Paraguai. Ele informou que nenhum policial de Mundo Novo participa do trabalho e limitou-se a dizer que isto se deve apenas a uma estratégia de atuação.
Posse - O vice-prefeito de Mundo Novo, Kleber Correa de Souza,(PMDB) será empossado às 9 horas de amanhã e sua recepção será uma manifestação de protesto de militantes do PT e do MST contra o assassinato da prefeita Dorcelina Folador. A mobilização foi confirmada pelo deputado estadual Ben Hur Ferreira (PT), depois de encontro com integrantes da executiva municipal do partido. A Polícia Militar pretende deslocar 50 homens para garantir a segurança durante a solenidade que será realizada na Câmara Municipal.
Segundo o deputado, a manifestação não terá o objetivo de contestar a legitimidade da posse do vice-prefeito, mas será realizada para marcar a posição do partido e do MST em relação ao assassinato. Nesse sentido ele acredita que será um ato pacífico.
O PT pretende ainda promover, dentro de cerca de 15 dias
um ato nacional de protesto contra o assassinato da prefeita, quando deverão estar em Mundo Novo os principais líderes do partido, entre eles, Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente do PT, José Dirceu, e o governador Zeca do PT.
Hoje, Kleber Souza informou que pretende convidar a maioria dos integrantes da administração da ex-prefeita a permanecerem em seus cargos. "Com exceção de alguns cargos de confiança direta, como o de chefe de gabinete e assessor jurídico, pretendo manter toda a equipe de Dorcelina", afirmou. Ele também disse que pretende administrar seguindo o programa de governo da ex-prefeita.
Logo depois da posse, o novo prefeito pretende assinar ato declarando luto oficial no município e suspendendo as atividades da prefeitura até segunda-feira. Somente trabalharão os servidores ligados aos serviços essenciais e as obras em andamento na cidade.

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