Uma operação para desmantelar o orçamento do PCC (Primeiro Comando da Capital), facção criminosa de São Paulo, mobilizou 180 policiais federais no cumprimento de 55 mandados de busca e apreensão e 30 de prisão em sete estados na manhã desta terça-feira (6). Só no Paraná, 11 cidades foram alvo das ordens da operação, chamada “Cravada”. A Polícia Federal de Londrina cumpriu mandados de busca e prisão no município, em Centenário do Sul e Arapongas, na região metropolitana.

Imagem ilustrativa da imagem Polícia Federal cumpre mandados em Londrina em operação contra o PCC
| Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O capital de giro das contas bancárias faccionadas era de R$ 800 mil a R$ 1 milhão por mês, segundo a PF, que bloqueou 400 contas bancárias investigadas. O dinheiro seria usado na gestão de crimes pelo País e a aquisição ininterrupta de drogas e armas. Mandados partiram da Vara Criminal de Piraquara, na região metropolitana de Curitiba, já que a investigação começou após informações de um núcleo financeiro do PCC dentro da PEP 1 (Penitenciária Estadual de Piraquara), em fevereiro.

O delegado Martin Bottaro Purper, coordenador da operação, explica que os criminosos arrecadavam valores de “comparsas” por meio de rifas cobradas de dois em dois meses. A mensalidade chegava aos líderes como se fosse uma “pirâmide”, de acordo com Purper. “Saía da base e chegava para quem administrava o dinheiro. O dinheiro era administrado em prol dos líderes, as pessoas abaixo na pirâmide contribuíam sem ter retorno”.

As contas eram utilizadas de forma intercalada, alternando a cada três, quatro meses, para impedir que órgãos como o Coaf (Conselho de Controle das Atividades Financeiras) e bancos percebessem essa movimentação. As contas eram de passagens, utilizadas para administrar valores, mas não para manter grandes quantias em depósito, segundo apurou a PF. “A contabilidade era feita em forma de planilha, como se fosse uma empresa. Os valores entravam e saíam”, afirma. Segundo Purper, a Força-Tarefa conseguiu acompanhar a cobrança de pessoas endividadas com a facção. “Quem deve, ou paga, ou são excluídas ou espancadas. Por vezes a pessoa aceita ser castigada para ter a dívida perdoada, muitas vezes quem deve a rifa tem que pagar isso com a prática de crimes, como o assassinato de agentes penitenciários em Cascavel. Eles eram devedores da facção.”

Ainda segundo o delegado, os visitantes dos presos nas penitenciárias federais recebiam valores para contribuir com informações. A PF chegou a R$ 311 mil gastos pela facção com visitantes nas penitenciárias por mês. A comunicação dos presos é um problema para os agentes de segurança e uma facilidade para as facções do Paraná. Segundo o delegado, o uso de celulares nas penitenciárias é uma “infeliz realidade do Brasil”.

Além da comunicação digital, os policiais apreenderam “bilhetinhos” que seriam levados para as unidades prisionais. “São as principais formas de comunicação dos presos com o meio externo. Acha-se que é carta da família, que é a ideia que se passa, mas na prática cartas para família são uma a cada 20. As outras são cobranças de dívida, assaltos e drogas”, afirma.

Por conta disso, a PF solicitou o bloqueio das visitas aos presos investigados. “Porque isso não busca seu fim, que é manter a família próxima do preso para ele voltar para a sociedade. Essa é a ideia do sistema, mas muitas vezes há uma deturpação.”

O delegado Ricardo Hiroshi Ishida, delegado regional de combate ao crime organizado e também coordenador da Lava Jato, explica que em poucos meses de rastreamento a PF conseguiu identificar o uso de contas para pagamentos de despesas correntes da facção como compra de armas, drogas e alimento do próprio crime. “É como se fosse uma tributação do crime, 25% do salário mínimo iria para a tributação dessas facções criminosas”, disse.

Os mandados foram expedidos para Londrina, Curitiba, São José dos Pinhais, Paranaguá, Centenário do Sul, Umuarama, Pérola, Arapongas, Tapejara, Cascavel e Guarapuava. Além do Paraná, São Paulo (Praia Grande, Itapeva, Osasco, Itaquaquecetuba, Hortolândia, na capital e no presídio de Valparaíso) também foram cumpridos mandados. Mato Grosso do Sul, Acre, Roraima, Pernambuco e Minas Gerais também tiveram ordens expedidas, contabilizando um total de 23 cidades envolvidas na organização criminosa. Entre as ordens de prisão, oito foram destinadas a pessoas já presas. Quatro no Paraná, três em São Paulo e uma no Mato Grosso do Sul. Até o final da manhã, 20 pessoas já tinham sido presas.

“É de interesse do Ministério Público não permitir que a criminalidade se instale no Paraná, como vem se instalando nos últimos anos. A medida visa sufocar a movimentação financeira para que eles saibam que no Paraná eles não têm mais espaço”, afirmou a promotora de Justiça do MPPR, Kelly Caldeira.

A ação tem apoio do Ministério Público do Estado do Paraná, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado de São Paulo, do Departamento Penitenciário Federal, da Secretaria de Administração Penitenciária do Estado de São Paulo e Polícia Militar de SP.

(Atualizada às 11h47)

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