Polícia e MP investigam suposto esquema na Anhembi; documentos são encontrados escondidos
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domingo, 04 de abril de 1999
Por Uilson Paiva 
São Paulo, 05 (AE) - O Ministério Público e a Polícia Civil estão convencidos da existência de um enorme esquema de nomeação de funcionários fantasmas e apadrinhados políticos na Anhembi Turismo e Eventos da Cidade de São Paulo. Em uma nova revista feita hoje na sede da empresa, foram encontradas 25 caixas com documentos de 1995 a 1998 - principalmente de contratação de empregados - escondidos em uma sala do terceiro mezanino do pavilhão da empresa.
A suspeita é que esse material seja o mesmo que estava sendo removido, quinta-feira, por funcionários do departamento de Recursos Humanos (RH). Dois funcionários do RH da Anhembi foram intimados a prestar depoimento hoje à noite ao delegado Itagiba Franco, da Divisão de Proteção Comunitária (Diprocom), entre eles a funcionária suspeita de ter desaparecido com disquetes de computador com a lista de funcionários da empresa. Hoje, ela apresentou alguns disquetes, mas ainda há dúvidas de que são os mesmos.
"A quantidade de pessoas registradas na empresa é absurda", afirmou o promotor José Carlos Blat, do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco). Segundo ele, a febre de contratações na empresa foi tão grande que, em alguns meses, o faturamento da Anhembi esteve 100% comprometido com a folha de pagamento. "Queremos saber por que isso ocorria e quem determinava a contratação", disse o promotor. "Vamos verificar também se isso não comprometeu o funcionamento da empresa, revelando uma situação de improbidade". Kombi - Hoje, foram apreendidos documentos dos setores de compras, contabilidade, diretorias e estacionamento da Anhembi. A quantidade de material foi tanta que precisou ser retirada em dois veículos da polícia: uma caminhonete e uma Kombi. Até o momento, toda a documentação retirada do local já ocupa 70 caixas, que estão sendo abrigadas no Departamento de Investigações sobre Crimes contra o Patrimônio (Depatri) da Polícia Civil.
Em salas que haviam sido lacradas na semana passada pelos investigadores do Gaeco, foram localizadas muitas folhas de presença de funcionários em branco. Entre os sobrenomes deles
estão o de vários políticos e vereadores - como Garib - e até mesmo de atores de televisão. O promotor Blat confirmou que o vereador José Izar (PFL) trabalhou na empresa de 1993 a 1996. Ao ser questionado pela reportagem do jornal "O Estado de S.Paulo" na semana passada se algum parente seu continuava com vínculo na empresa, Izar bateu o telefone duas vezes, encerrando a entrevista.
"Há a suspeita muito forte de que um esquema de funcionários fantasmas funcione aqui dentro", observou Blat. Os problemas dizem respeito a contratações por altos salários de funcionários efetivos e temporários pela empresa terceirizada Manpower, que fornece mão-de-obra para a Anhembi, em casos de feiras e eventos. O material será examinado a partir de quarta-feira. "Apreendemos notas fiscais e cópias de contratos de serviços firmados pela Anhembi com e sem licitação, que serão alvo de investigações", afirmou o promotor. Segundo ele, o esquema envolvendo a empresa surpreendeu a equipe de investigação. "Muita gente vai ter de se explicar". Arquivo - O material mais importante encontrado hoje foi localizado após uma denúncia anônima feita à redação do jornal "O Estado", no mesmo dia em que a reportagem flagrou a remoção secreta de documentos. Instantes depois de funcionários do RH da Anhembi retirarem os documentos, outro funcionário, que não se identificou, telefonou para o jornal dando a localização de uma sala no segundo mezanino para a qual teriam sido levados os documentos.
Presentes no local, o promotor Blat e o presidente da CPI dos Fiscais, José Eduardo Cardozo (PT), encontraram documentos na sala descrita. No outro dia, outro telefonema informou sobre a existência de mais papéis escondidos numa peça do terceiro mezanino, em frente da sala de telefonia. Como a porta estava trancada, foi lacrada e revistada somente hoje pelos investigadores do Gaeco.
Lá foram encontrados documentos de 1998 - o que desmonta a tese do presidente afastado da Anhembi, Ricardo Castello Branco, de que a sala seria "arquivo morto". "Esses documentos, de interesse do Ministério Público, não deveriam estar lá", observou Blat. "Isso revela descaso".


