O delegado Walmir Alves de Carvalho, que preside o inquérito que apura a morte do índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, não acredita que o crime tenha sido premeditado pelos estudantes Max Rogério Alves, Antônio Novélly Vilanova, Tomás Oliveira de Almeida, Eron Chaves de Oliveira e G.N.A.J. ‘‘O fato de eles terem visto o índio e depois irem comprar o álcool não quer dizer premeditação de um crime’’, diz o delegado. Já a delegada da Infância e da Adolescência, Suzanne Machado, responsável pelo inquérito do menor G.N.A.J., disse ontem que o depoimento do frentista do posto que vendeu álcool para os adolescentes confirma que eles compraram o combustível com a intenção de cometer o crime.
‘‘Foi uma coisa bem pensada, calculada e planejada’’, declarou a delegada Suzanne, acrescentando que ‘‘isso caracteriza que houve homicídio doloso qualificado e o ato não foi impensado, como os rapazes informaram, a princípio’’.
Ao serem detidos, no domingo, os quatro jovens maiores de idade disseram à polícia que passaram pela Avenida W-3 Sul, viram o suposto mendigo e resolveram usar um produto que tinham no carro para dar ‘‘um susto’’ nele. O menor G., entretanto, que está detido em outro local, afastado dos demais, disse na Delegacia de Menores que os cinco jovens viram o mendigo dormindo na parada às 3h40 e decidiram atear fogo nele, para dar um susto.
G. informou ainda que, como não tinham meios para fazê-lo, procuraram um posto de gasolina distante 2,5 quilômetros da parada de ônibus e compraram o álcool combustível para realizar a tarefa. De posse do álcool, o grupo retornou à parada. Às 5h10, checaram que o índio ainda estava dormindo e jogaram o álcool sobre ele. O menor garante que não fez nada. Só assistiu tudo e nem sequer jogou fósforo aceso no mendigo. Em outro depoimento, o seu irmão, Tomaz, confirma que o seu irmão G. era o único que não tinha caixas de fósforo nas mãos.
O frentista Adailto Ribeiro da Silva, 24, confirmou ontem em depoimento à polícia que vendeu dois litros de álcool combustível aos cinco jovens.
O delegado Walmir de Carvalho admite que a compra do álcool ‘‘agrava a situação dos acusados, já que a maldade ficou caracterizada.’ Anteontem, o delegado admitia a possibilidade de premeditação.
O delegado pretende concluir o inquérito até amanhã. ‘‘Faltam apenas alguns depoimentos de testemunhas para fecharmos o caso’’, assegura Carvalho, que hoje irá ouvir o advogado Evandro Pertence, filho do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Sepúlveda Pertence, que ajudou a socorrer o índio pataxó na madrugada de domingo.
Para o delegado, até o fato de os acusados terem se cotizado para comprar o combustível se torna um agravante, provando que os estudantes estavam lúcidos quando cometeram o crime. ‘‘Ficou comprovada a maldade, mas não a premeditação’’, afirma Valmir Carvalho. ‘‘Para se comprovar que foi um crime premeditado, teríamos de provar que os rapazes se encontraram um dia antes, prepararam o combustível com antecedência, o que não ocorreu.’
Ontem o delegado ouviu Vera Moretti, dona da pensão onde o índio pataxó estava hospedado. Ela disse que não ouviu ninguém bater à sua porta. ‘‘O índio estava hospedado em outra casa, longe da minha’’, disse a dona da pensão, uma ex-bancária que há seis anos presta serviços à Fundação Nacional do Índio (Funai). Segundo Vera, Galdino tinha liberdade para entrar a qualquer hora na outra pensão. ‘‘Eles (os índios) chegam quando querem e até mesmo pegam as roupas de cama.’
Se condenados, os quatro estudantes maiores poderão cumprir pena de até 34 anos de prisão. O delegado indiciou os acusados por homicídio doloso (quando se tem a intenção de matar) e corrupção de menores, já que G.N.A.J estava junto com o grupo. O menor, que está recolhido em uma cela com outro menor acusado de roubo, no Centro de Assistência Juvenil Especializada (Caje), poderá ser condenado a quatro anos de prisão.

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